Encare de frente!

Construções linguísticas distantes do padrão são cada vez mais perceptíveis na fala espontânea. Numa conversa informal, sempre há alguém esperando por um deslize ou, talvez, prestes a cometer um

Texto Edimilson José de Sá*

Se você achou estranho o título deste texto, deve ter imaginado: “Não deveria ser apenas ‘Encare!’?” Quem teve esse pensamento está certíssimo. Construções do tipo “encare de frente” são muito comuns e exemplificam uma figura de linguagem chamada pleonasmo.  Pleonasmo é uma palavra oriunda do grego pleonasmos e significa excesso, amplificação, exagero. Ao passar pelo latim tardio pleonasmus, chegou à gramática com o sentido de redundância. A aplicação dessa figura tem o propósito de reforçar a mensagem passada pelo emissor. Ao contrário do que se pensa, há dois tipos de pleonasmo. Um deles constitui uma figura de linguagem responsável por destacar uma ideia, pensamento ou sentimento, mas essa situação é mais comum na linguagem literária. O outro tipo acrescenta um item desnecessário à compreensão do sentido do termo anterior, mas sem a atenção devida, torna-se um vício quase sempre irreparável. Para entender a diferença, nada melhor do que observar exemplos de produções em que os pleonasmos são evidentes. Num trecho de Eurico, o Presbítero, Alexandre Herculano escreveu:

“A vileza do coração humano surge após ela em toda a hediondez do seu aspecto. O terror acabou com os mais santos afetos e até com o amor filial e paterno. Cada qual busca salvar-se a si próprio. Os netos dos nobres godos converteram-se num bando desprezível de covardes egoístas.”

Em I – Juca Pirama, de Gonçalves Dias, há outra expressão pleonástica:
“- Eis-me aqui, diz ao índio prisioneiro; Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
As nossas matas devassaste ousado,
Morrerás morte vil da mão de um forte.”

Na letra da música Tanta saudade, gravada por Djavan, é possível encontrar a expressão que dá título a este texto. Alguns autores a consideram como pleonasmo musical.

Mas voltou a saudade
É, pra ficar
Ai, eu encarei de frente
Aí, eu encarei de frente, menina
Se eu ficar na saudade
É, deixa estar
A saudade engole a gente
A saudade engole a gente, menina”

 

Em casos como “encarei de frente”, fica claro que o objetivo do pleonasmo é apenas enfático. Casos como esse são comuns em canções da MPB e em títulos de produções televisivas, mas não tiram o valor de nenhum desses gêneros. Alguém já parou para analisar os trechos “Detalhes tão pequenos de nós dois…” e “Eu nasci há dez mil anos atrás…”, ou deixou de assistir a uma novela com o título Viver a vida?

QUANDO A REPETIÇÃO SE TORNA UM VÍCIO
Mais que uma redundância, conforme já foi mencionado, o pleonasmo também pode ser caracterizado como vicioso, uma vez que ele consiste numa repetição desnecessária de uma expressão dentro de um determinado contexto. Tal repetição é inútil à estrutura da frase e constitui, assim, um vício de linguagem, porque está presente na fala espontânea sem ser percebido pelo falante. Há pessoas que ignoram quando escutam subir para cima, descer para baixo, mas não percebem que outras expressões, aparentemente bem construídas, também possuem repetições na sua estrutura e, por isso, devem ser evitadas. Um substantivo coletivo, quando especificado, também se torna um pleonasmo, pois os itens reunidos são únicos na espécie coletada. Expressões do tipo cardume de peixes, enxame de abelhas e multidão de pessoas dispensariam os itens agrupados, ou seja, bastaria mencionar cardume, enxame e multidão. Outros exemplos de pleonasmos:

ARTE

A título de curiosidade, não é rara uma prova com a seguinte questão: “Assinale a alternativa que contém erro de ortografia”. A expressão erro de ortografia já constitui um pleonasmo, pois ortografia (orto – correta e grafia – escrita) indica que nada há de errado, então o mais sensato seria usar “erro de grafia”. Caso semelhante ocorre com a expressão “bonita caligrafia”. O termo “caligrafia” advém do grego kalligraphía e significa “letra bonita”, por isso o adjetivo não é necessário.

ENTRE O USO E A LÓGICA
Na visão do professor pernambucano Evanildo Bechara, o grande juiz entre os pleonasmos é o uso e não a lógica. A despeito de expressões do tipo subir para cima e descer para baixo serem ignoradas, exemplos do tipo o leite está saindo por fora e palavra de rei não volta atrás não sofrem estranhamento por estarem fora da situação especial de ênfase. Esse tipo
de situação é comum em alguns casos: Na série possessiva seu… dele ou sua… dela para fugir à ambiguidade.

No livro Obras Seletas de Carlos de Laet, Jackson de Figueiredo menciona:
“Mas não esmoreceu o Sr. Conde de Laet. Ninguém melhor do que ele fez então a psicologia da maior parte dos nossos movimentos revolucionários. Não só mostrou que quase sempre a sua casa deles é um segredo…”

 

Quando são empregados dois termos de significado negativo com sentido afirmativo. Isso ocorre em não indouto =douto; não sem razão = com razão; nada anormal = muito normal; sem desconhecer = conhecendo; indesculpável = culpável. Quando uma conjunção integrante é repetida em construções, como vista na obra A Queda de um Anjo, de Camilo Castelo Branco:

“… e disse que, se lhe não queríamos mais nada, que podíamos ir à nossa vida…”

 

Caso semelhante ocorre na fala espontânea quando a conjunção acompanha transpositores de uma oração subordinada, como acontece em:

“Quero uma explicação de como que você soube do evento? Ainda não marcamos quando que iremos viajar de férias. Ele não sabe quanto que custa o carro.”

O professor e filólogo mineiro Celso Cunha (1917 – 1989) e o amigo e professor português Lindley Cintra (1925 – 1991) mencionaram uma redundância causada pelo emprego do adjetivo como epíteto da natureza, como ocorre em céu azul, prado verde, fria neve, mar salgado, noite escura e muitos outros que não revelam repetição desnecessária, mas constituem um recurso literário
responsável por enfatizar algo mencionado anteriormente. Usa-se, portanto, uma característica exclusiva do substantivo para reforçar a sua importância nas produções dos grandes autores.

UM REALCE AO COMPLEMENTO VERBAL
Para dar ênfase ao objeto direto ou ao objeto indireto de uma oração, costuma-se acrescentar um pronome oblíquo. Trata-se de mais um recurso literário chamado de objeto pleonástico. Quando a oração possui um objeto direto no início da frase, encontra-se uma repetição desse objeto na forma pronominal o e suas variações de gênero e número. Fernando Pessoa citava:

“Paisagens, quero-as comigo”, com o mesmo propósito enfático que Mário Quintana escrevia “Meu saco de limões, bem cheio, tive-o”. Na mesma proporção, quando a oração possui um objeto indireto logo no início, a ênfase ocorre quando o pronome lhe (ou lhes) é mencionado posteriormente. Isso é comum em provérbios do tipo: “Ao homem mesquinho basta-lhe um burrinho” e “Ao pobre não lhe prometas e ao rico não lhe faltes”. São encontrados, também, casos em que os objetos são enfatizados com o pronome átono da forma tônica correspondente regida da preposição a. Os exemplos abaixo servem de parâmetro comparativo:

“Uma mulher preconceituosa que prefere tudo a que digam que o marido a deixou, ou que ela o deixou a ele.” (Maria Judite de Carvalho)

“A mim não me enganas tu.” (Miguel Torga) “Luzia, por que a ventura – a mim me queres negar?” (Joaquim Cardoso)

“A mim até me pareceu que o sarrão fosse dela.” (Manuel Lopes)
Existem casos de pleonasmo na língua portuguesa que a literatura já se incumbiu de patenteá-los. O verbo suicidar-se, por exemplo, é um deles. Etimologicamente, o verbo é estruturado por sui(se) + cida (matar), ou seja, suicidar já significa matar-se. Porém, por algum motivo, acrescenta-se um se pleonástico ao verbo. Lima Barreto escreveu há mais de cem anos:

“Ontem, matou-se um doente, enforcando-se. Escrevi nas minhas notas: suicidou-se no pavilhão um doente. O dia está lindo. Se voltar a terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o
dia tão belo como o de hoje.” Se há uma explicação linguística para o pleonasmo em suicidar-se, talvez seja interessante saber, mas quem ousaria alterar o texto de Lima Barreto?

*Edmilson José de Sá é professor de Língua Portuguesa, mestre em Linguística (UFPE) e doutorando em Letras (UFPB). Contato: edmilsonjsa@hotmail.com

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 42