Educando leitores e produtores de texto

Leitura, alfabetização e educação

Texto Liliane Nunes | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação

 

 

Para muitos professores dos anos iniciais é inconcebível pensar alfabetizar a partir de textos, ainda mais pensar em colocar os alunos para escreverem textos — o que nos conduz a uma reflexão mais profunda sobre esse assunto. Precisamos partir da premissa de que a alfabetização quando parte do texto mostra algumas dificuldades, limites, necessidades e, sobretudo, possibilidades.
Possibilidades de mudança nas práticas de alfabetização, o que significa mudar o ensino, senão totalmente, pelo menos o suficiente para lidarmos com as dificuldades, rompermos com os limites para suprirmos as reais necessidades de aprendizagem e inserção no mundo. A alfabetização em sua concepção básica e superficial se dá pela codificação e decodificação do código linguístico,
só que não se resume ou se restringe a isso. Só aprendemos a fazer tal feito para significarmos, interpretarmos e utilizarmos socialmente tal aquisição.

 
Sendo assim, a alfabetização se torna um desafio de integralidade, de concepção social e humana ampla, que deve ser enfrentada sem perder sua dimensão maior, como a criação de um vínculo
pedagógico e social de desenvolvimento do sujeito e das relações ensino/aprendizagem, tornando-se necessário discutir a importância de se alfabetizar a partir de textos e de ensinar a escrever por meio da prática de produção textual. É dentro dessa perspectiva e organização das práticas alfabetizadoras que focalizaremos o tema da produção de texto desde o início da alfabetização, para que
tão logo as crianças sejam autoras e produtoras de texto. Nas palavras de Paulo Freire, praticar para aprender e aprender para praticar melhor.

 

A HERMENÊUTICA DA ALFABETIZAÇÃO

 
Precisamos trabalhar a hermenêutica da alfabetização. Segundo Foucault (1981:45), “chamamos de hermenêutica o conjunto dos conhecimentos e das técnicas que permitem fazer falar os signos e descobrir seu sentido”. Precisamos de conhecimento para alfabetizar, assim como precisamos de técnicas e de sentido contextualizado e significativo. Estamos pleiteando aqui, usar o texto como forma de interação porque é por meio de diálogos completos e significativos que nos comunicamos e nos fazemos entender no mundo. O que dificulta a aprendizagem para se formar alunos produtores de texto no ano inicial é o fato de estigmatizar a capacidade do leitor e escritor inicial de conceber a língua e sua lógica estrutural e conceitual, o que acaba impedindo o aluno de pensar e de se apropriar do seu próprio conhecimento.

 
Não devemos abrir mão de ensinar os alunos a escreverem por meio da produção de texto, por receio de eles não conseguirem e ficarem excluídos; devemos aprender a utilizar a ferramenta de produção de texto para incluir, significar e desenvolver a capacidade do indivíduo, isso sim, é um ato de ensino, de formação e promoção das práticas de alfabetização, visto que o passo crucial da inclusão e do desenvolvimento humano está na aprendizagem efetiva e na sua capacidade de utilizá-la socialmente.

 
Alfabetizar significa ensinar a ler, interpretar e produzir texto, indo além do óbvio, da decodificação e do explícito. É no processo de alfabetização que o educador procura propiciar no educando o gosto pela leitura e escrita, mas para isso é necessário que o professor contextualize e signifique essa prática. O professor precisa confrontar suas práticas de alfabetização para não se tornar solidário com a exclusão das centenas de alunos que chegam ao final do 1º ciclo sem aprender a ler e escrever. É imprescindível respeitar o ensino da leitura e da escrita em sua lógica e em sua democracia. Acima de tudo, está o direito de aprender e de aprender como ferramenta de leitura de mundo e cidadania.

 
O que não pode se tornar aceitável é a estigmatização de crianças como incapazes, dividindo a turma entre os que avançam e os que ficam atrasados, pela falta de análise e de oferta da língua em sua integralidade e contextualização. Não pode valer mais o prestígio de se ensinar a escrever sílabas soltas do que a aprendizagem significativa. Para ensinar a escrever textos é preciso oferecer suportes e apresentar diferentes gêneros textuais para as crianças, como rotina escolar, sem perder de vista a escrita, sem perder o foco que é o aluno. Alfabetizar precisa ser uma ação pedagógica e não instrucionista. A boa aprendizagem da alfabetização tem um papel importante na constituição da autoestima do sujeito, sendo um ato socialmente construído e com validade somente se servir aos interesses sociais de confirmação e/ou transformação.

 
Para que o aluno possa produzir textos desde o início, o professor precisa ser o real motivador dessa ação, mediando esse processo com eficiência, crítica e reflexão — o professor deve escrever textos constantemente para que o aluno veja e aprenda, chamando atenção para as convenções da escrita, sinalizando a estrutura que permite que alguém escreva e que outros consigam ler.
É importante que o professor seja o escriba em muitos momentos desse primeiro contato com a escrita, mostrando o que para a criança ainda não é óbvio, a organização espacial, que graficamente a escrita de um texto é representada por linhas horizontais constituindo parágrafos, a segmentação das palavras, seus sinais gráficos, tipos de texto etc.

 
RESULTADO DA ALFABETIZAÇÃO

 
Vivenciar essas experiências torna a criança capaz de produzir texto desde o início da alfabetização. Isto implica em definir objetivos para os alunos e com os alunos, utilizando estratégias eficazes e significativas para o uso da língua escrita, lembrando que a aprendizagem da leitura e da escrita implica muito mais do que os aspectos cognitivos, afetivos e físicos do indivíduo, implica também fatores como a filosofia da escola, a formação dos professores, conscientização, reflexão e uso adequado dos métodos de alfabetização e sua complementação para atender as necessidades específicas de cada aluno. Sendo assim, percebemos que existe uma gama de fatores que culminam no resultado da alfabetização, por isso, conhecer e refletir sobre o uso social dela e a forma como desenvolvemos nosso aprendizado torna a alfabetização uma prática de construção de sentido do uso social.

 
A melhor prática é aquela que desenvolve em nós a habilidade de questionar, fundamentar, argumentar e contra argumentar, o que nos leva a aprender sempre e a exercer a autocrítica da nossa práxis permanentemente. Assim, acreditamos ser a alfabetização um ato muito mais amplo e complexo do que a simples decodificação de símbolos, e o modo como os alfabetizadores a concebem são decisivos para o tipo de sujeito que se espera formar, sabendo-se que somente uma alfabetização inclusiva e formativa é capaz de promover o sujeito histórico, crítico, reflexivo e criativo, efetivando desse modo uma sociedade democrática, capaz de dinamizar a construção da autonomia.

 
Devemos crer nas competências e investir nos saltos qualitativos que os agentes alfabetizados são capazes de conseguir, juntamente com a interferência de quem os alfabetiza. Segundo Vygotsky (2002), o desenvolvimento do indivíduo deve ser olhado de modo prospectivo, acreditando e intervindo sempre sobre ele e para ele; apontando para importância do percurso e não somente para aquilo que está pronto. Cabe perceber, também, os processos embrionários que ali estão presentes, mas que ainda não se consolidaram.

 
Sabe-se que, de um lado, a busca por métodos mais eficientes para alfabetizar tem sido uma constante nas discussões educacionais, propiciando um cabedal questionador em torno de todo processo educativo, colocando em dúvida sua adequação e credibilidade [Uma ressalva à “credibilidade”, escrita aqui no sentido de que atualmente ao se questionar um termo põe-se em dúvida sua validade; no caso da alfabetização, aparece atualmente como o cerne da questão educacional, exaltada ou negada.] e paralelamente, contribuindo para a perpetuação de alguns conceitos. É nessa perspectiva e nesse contexto que o papel da alfabetização tem sido posto em questão, por isso, precisamos analisar seu papel político-social e relacioná-lo com mais duas dimensões fundamentais: “humanas e técnicas”, e tudo mais que elas implicam, articulando de maneira crítica e fortificando assim uma percepção global que nos permita repensar os estigmas que criamos e carregamos ao longo da nossa existência e das vivências que em dado momento nos deparamos nesse contexto. Vale também, questionar nossas certezas e duvidar de nossas próprias dúvidas, para assim, começarmos uma existência destituída de “preconceitos”, estigmas, fracassos e exclusões.

 
A alfabetização, apesar de tão discutida, debatida, ainda é um desafio que precisa ser perseguido cada vez mais e melhor, ajudando a qualificar a prática pedagógica a melhorar a sociedade. Com este olhar propedêutico sobre o papel que a alfabetização deve exercer em busca de uma educação de qualidade é que o campo de sua atuação se consolida fortemente na preeminência de uma formação continuada e resiliente. Sendo assim, focar isoladamente uma forma de atuação para se alfabetizar e mecanizar sua ação é minimizar e neutralizar a riqueza que se pode obter nesse aprendizado. Tais perspectivas tornam-se imprescindíveis para o refazer da prática e da indagação permanente que permeia toda essa temática.

 
Diante de um novo contexto educacional e social, a necessidade de se repensar o ensino da leitura e da escrita se torna fundamental. O professor deve levar o aluno a refletir sobre novas práticas no ensino da leitura e fazer considerá-lo a intertextualidade, articulando o que está dito em um texto e o que está dito em outro, até mesmo compreender o não dito.
Em síntese, o que se pretende neste artigo não são novos procedimentos, o que se almeja são novas atitudes frente à leitura, escrita e frente ao indivíduo como sujeito ativo.
escrever por pedaços e partes desconexas. É muito mais complicado para o nosso cérebro estabelecer conexões neurais com algo irrelevante e sem sentido. Para promover o aprendizado tem de ter coesão e sentido. Lembrando sempre que aprender a escrever é uma prática cultural com diversos níveis de complexidade.

 

Revista Conhecimento Prático – Língua Portuguesa Ed. 65