Educação Psicomotora

O brincar no desenvolvimento infantil

Texto Carlos Alberto de Mattos Ferreira | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação

 

A educação psicomotora tem seu marco inicial com as propostas de Jean Le Boulch, na França, ainda nos anos 1960. Professor de educação física e psicomotricista, Le Boulch assume a pasta de coordenador nacional de educação física e propõe uma nova abordagem que valorize não somente os aspectos físicos, mas também os elementos que compõem uma educação para o desenvolvimento infantil.

 
Inaugura, assim, um importante modelo de desenvolvimento global, baseado nos três tempos: corpo vivido, percebido e representado. Este olhar, fortemente inf luenciado por Piaget e Wallon, por sua vez influenciaria todos os futuros psicomotricistas educacionais, até os dias atuais. Os objetivos principais de sua proposta educativa são o desenvolvimento funcional e o relacional, tendo a imagem corporal como referência fundamental para os mesmos. Compreende-se que ambos os desenvolvimentos se complementam. Por um lado, os clássicos e importantes processos funcionais de coordenação dinâmica global, coordenação visomanual, consciência temporal e espacial, lateralidade e equilíbrio, consciência corporal e controle tônico, e de outro, as relacionais sinalizando a construçãoda imagem do Eu, do outro e da realidade, desde o nascimento até o início da adolescência.

 

VAYER, LAPIERRE E AUCOUTURIER

 

Pierre Vayer, posteriormente, acrescentaria à noção de consciência corporal a ênfase na respiração e na relaxação para maior benefício do desenvolvimento infantil. Com forte acento sobre o tônus corporal, propõe uma percepção maior de si mesmo, com um projeto de educação corporal de base psicotônica. Vayer passa a valorizar os princípios de desenvolvimento psicomotor nas relações que a criança estabelece com seu próprio corpo, com o corpo do outro e com os objetos. Pode-se até aproximar suas propostas daquelas que valorizam a importância da yoga e da meditação para as crianças e jovens adolescentes.
André Lapierre e Bernard Aucouturier, mais tarde, aprofundariam a perspectiva dos seus antecessores ao incluir, num primeiro tempo, uma imersão nos processos que compõem a noção de percepção humana. Investindo em oficinas que incentivam a consciência de si, produziram trabalhos enriquecedores baseados nos contrastes perceptivos, associações complexas de contrastes e suas nuances. Sustentaram um projeto educativo que mantinha a máxima instaurada por Le Boulch: vivenciar, perceber e representar.

 
Instigados pelo desafio de compreender os processos mais profundos do desenvolvimento psicomotor, Lapierre e Aucouturier avançam em seus constructos teóricos e sinalizam, pela via dos afetos, a existência dos fantasmas corporais, subjetivos e singulares, inscritos na história humana. Sob essa perspectiva, investem na inovação de uma prática que faz fronteiras com a terapia psicomotora. Com a criação da Psicomotricidade relacional, pode-se até afirmar que deram início às bases para as terapias psicomotoras contemporâneas. Posteriormente, constroem diferentes correntes clínicas e educacionais: a Análise Corporal de Relação, com André Lapierre, de um lado, e a prática psicomotora Aucouturier (PPA), com Bernard, de outro. Ambos difundem suas propostas por todo o campo de línguas latinas, com ampla repercussão em vários países, incluindo o Brasil.

 
Em todos os autores apresentados, observa-se um elemento fundamental, um instrumento da mais alta relevância para o desenvolvimento humano que é a atividade lúdica do brincar. E, além desta, compreende-se que a construção psíquica está baseada nas relações interpessoais e nas estabelecidas com o meio físico e social. Por meio do brincar é possível construir os elementos que implicam na construção do desenvolvimento humano. A ludicidade permite a criação de vínculos e a oportunização dos principais constructos da atividade da mente, sob uma ótica da consciência, e da constituição da subjetividade, sob uma ótica inconsciente.

 
BASES DO BRINCAR
A psicanálise tem forte influência na compreensão do inconsciente e da formação das subjetividades, na força dos afetos, na construção da imagem e do esquema corporal. As bases freudianas e winnicotianas do brincar implicam num salto qualitativo da função do brincar em Psicomotricidade. A importância da qualidade das relações em Psicomotricidade torna-se a principal forma de estratégia de ação metodológica.

 
A relação entre imagem e esquema corporal passa a ser, cada vez mais, objeto de estudo e reflexões entre os psicomotricistas. Ferreira e Heinsius (2010) propõem como objeto de estudo da Psicomotricidade a interação entre a imagem e o esquema corporal. Essas interações sustentam o arcabouço vivencial e teórico do psicomotricista e também da linha do tempo da existência humana. Desde o nascimento até o envelhecimento, esses dois aspectos estarão em constante transformação.

 
A educação com filosofia psicomotora valoriza tanto a ação experiencial individual, quanto aquela que é compartilhada entre os sujeitos. Na interação com os outros, a criança passa a desenvolver suas estratégias de desenvolvimento interpessoal, aprendendo a complexidade dos afetos, os limites de si e do outro, e pode ter mais capacidade para resolver situações que impliquem em frustrações e conquistas, e em ganhos e perdas.

 
Atualmente, a Psicomotricidade é uma referência em inúmeras escolas de educação infantil, ensino fundamental, atividades aquáticas e no campo da inclusão social. Da infância à gerontologia, vem se constituindo cada vez mais fortalecida. Deve-se ressaltar que, hoje em dia, são muitas as correntes em Psicomotricidade atuando no campo da educação, interagindo com seus diversos contextos socioculturais. A Psicomotricidade não descobriu as noções de desenvolvimento humano e de imagem e esquema corporal. Contudo, seu campo de estudo, atravessado por diversas disciplinas aponta a possibilidade de compreender o ser humano de uma forma mais complexa e, assim, poder atuar no extenso campo da educação e da saúde.