Curiosidades gramaticais

Entenda como a língua passa por constantes transformações

Texto Leo Ricino | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Nossa Língua Portuguesa é, no contexto mundial, uma menina de 850 anos, aproximadamente. Coube a D. Dinis, o sexto rei português da dinastia Borgonha ou Afonsina, o qual reinou de 1279 a 1325, a imposição dela como língua oficial, destronando o latim. Destronando o latim, mas o que, de fato, existia paralelamente ao latim, era o galaico-português, língua em que grande parte das cantigas medievais foram compostas. Ou seja, Portugal e sua língua estavam umbilicalmente unidos à Galícia e ao galego, dos quais, por questões políticas e até por consolidação como reino independente, se desligam definitivamente por volta de 1350, alguns anos após a instituição por D. Dinis do português como língua oficial do reino. Esse rei D. Dinis foi muito preocupado com educação, a ponto de, em 1290, ter criado o “Estudo Geral na cidade de Lisboa com abundância de doutores em todas as artes e concede-lhe muitos privilégios” (apud Maria José Azevedo Santos, “D. Dinis, O Lavrador”, in História dos Reis de Portugal, vol. I, p. 287, QN – Edição e Conteúdos S.A., Lisboa, 2010). E esse “Estudo Geral” nada mais é que a atual Universidade de Coimbra, com 725 anos de existência, que nasceu, como se vê, em Lisboa, sendo transferida para Coimbra já em 1308, voltando a Lisboa em 1338, perambulando entre as duas cidades até 1537, quando definitivamente se instalou em Coimbra.

 

METAPLASMOS

Uma das características de uma língua viva é sua constante mutação, quer na fonética (na qual encontramos o maior conjunto de alterações), quer na morfologia, quer na sintaxe. E, por consequência, na semântica. A essas transformações que a língua sofre ao longo do seu percurso histórico, original e fundamentalmente no campo fonético, mas que depois se ampliam para as outras áreas de comunicação, se dá o nome de metaplasmos. O intuito deste articulista é passar aos leitores de nossa revista algumas dessas transformações. Antes, todavia, transcreverei – só para que o leitor perceba qual a distância que nos separa, em termos linguísticos, dos idos de 1325, fim do período de D. Dinis e início do período do seu bélico filho – um pequeno trecho de uma das atas das cortes portuguesas do reinado de D. Afonso IV, que reinou de 1325 a 1357: “Dom Afonso pella graça de deus Rey de portugall e do algarue A quantos esta carta virem faço saber que Eu querendo fazer graça E merçee ao Concelho de lixboa outorgo lhe E confirmo o seu foro que ham scripto E boons usos E costumes assy como os ouuerom em tempo dos Reys que ante mym forom. Em testemunho desto dey ao dito Concelho esta minha carta seellada do meu seello do chunbo dante em Euora vynte e dous dias d abrill El Rey o mandou Martim Steves a fez Era de mjl E trezentos e sseseenta e tres anos.” (in “Cortes Portuguesas Reinado de D. Afonso IV” – 1325-1357, Inst. Nac. de Investigação Científica, Lisboa, 1982, p. 18) Esclareço que digitei ipsis litteris o que está no livro acima citado.

 

 

Esse trecho é de uma das atas das Cortes de Évora, realizadas em abril de 1325. O curioso é que D. Afonso aparece de várias formas nas diversas atas que compõem o registro desses Conselhos: Don Affonsso, Dom Affonso e Dom Afonso. Outro esclarecimento é que, como se viu na transcrição, a data lá exarada é 22 de abril de 1363. Essa é a data pelo calendário romano, do qual, para transformarmos no gregoriano, precisamos subtrair 38 anos. Por isso, pelo calendário gregoriano, o 1363 do calendário cesariano é o nosso 1325. Avancemos no tempo e cheguemos a 1867. Augusto Soromenho, filólogo português do século XIX, publicou naquele ano o livro “Origem da Língua Portuguesa”. Dele, Oliveira Martins, in História de Portugal, vol. I, Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira, Lisboa, 1917, p. 11, subtraiu um curioso trecho: “… entre a lingua usada na provincia de Entre-Douro-e-Minho e a que mais tarde apparece nas terras do Cima-Côa e na Estremadura ha uma diferença bastante sensivel. Póde sem receio dizer-se que, á similhança do que succedia além dos Pyreneus, em Portugal havia tambem uma langue d”oc e uma langue d”oil, a lingua do Norte e a lingua do Sul…” Aqui já se nota grande aproximação com o Português atual.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Fiquemos com essas quatro curiosidades. Se elas não tivessem nenhuma importância aos tempos modernos – o que não é verdade, elas servem para despertar a curiosidade dos professores de português e até de entusiastas da língua. Costumo dizer que a língua sofre da mesma negligência que se dá ao ar. Ambos estão aí e são insuportavelmente importantes e indispensáveis para a humanidade, mas são poucos, muito poucos, os que se preocupam com esses dois fenômenos: são de graça! Nunca fui contra as novidades, alterações e vieses linguísticos, pois cada geração dá sua própria idiossincrasia ao seu momento, mas acho que, se relegarmos a língua a coisa de somenos importância, um dia colheremos uma nova Torre de Babel. Portanto, é preciso carinho e atenção com a língua, a maior e insuperável invenção da Humanidade.

 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 53

curiosidades-gramaticais