Curiosidades Gramaticais

A linguagem passa por constantes renovações, você conhece as normas hoje?

Texto Leo Ricino | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Shutterstock

 

Essa característica semovente de uma língua é que leva, no caso da nossa, a torceres de nariz com novidades que incomodam a zona de conforto dos usuários. Quem não se lembra da grita contra a palavra PRESIDENTA, por princípio, feia mesmo?! Talvez não se tenha torcido o nariz para outras palavras terminadas em NTE — em tese invariáveis genericamente — e que também adotaram a forma feminina, como INFANTA, ELEFANTA, GOVERNANTA, etc. Essas são de uso consagrado e sua forma não é questionada modernamente. Pode até ter havido grita na época de sua formação (INFANTA é do século XIII; ELEFANTA surgiu em 1844; GOVERNANTA, 1841), mas nos dias atuais não se discute. Ora, PRESIDENTA foi usada pela primeira vez em 1868, na peça de teatro AS SABICHONAS, de Molière, na versão libérrima feita por Antônio Feliciano de Castilho, na qual aparece quatro vezes na fala da personagem Pancrácio. Machado de Assis também a usou em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 
Um aviso: aos que torcem o nariz ao ouvir ou ler a palavra PRESIDENTA, alerto que, na página 196 do VOLP atual (5.ª edição, de 2009), está a palavra CLIENTA; na 622, PARENTA, e na 752, SERVENTA, femininos de cliente, parente e servente. Em compensação, o DICIONÁRIO ESCOLAR DA LÍNGUA PORGUESA, da Academia Brasileira de Letras, a mesma responsável pelo VOLP, não registra nenhum dos femininos acima, talvez por julgá-las formas supérfluas. Outros três dicionários eletrônicos que consultei, o Houaiss, o Aurélio e o Aulete, só trazem a forma PARENTA, cuja criação, segundo o Houaiss, é do século XIII. O Aulete dá seu detalhe também: fornece um exemplo do escritor Xavier Marques, no romance “O Feiticeiro”, de 1922: Seria indigno de mim abandonar Eulália… Nem o Boto é homem a quem se possa tratar deste modo, desacreditando-lhe uma parenta. (Xav. Marques, Feiticeiro, c. 27, p. 256, ed. 1922.) || F. fem. de Parente.

 
PRÓXIMAS MUDANÇAS
Numa estrofe de um dos seus belos sonetos, Camões diz:

 
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.”

 
Há visíveis mudanças batendo na porta da modalidade brasileira da língua. Vejamos algumas que me parecem inevitáveis, o que não quer dizer que necessariamente eu concorde com todas:

 
CATETER x CATÉTER

 
A primeira forma, oxítona, fatalmente se transformará na segunda, paroxítona. Dos últimos trinta a quarenta médicos com os quais fiz consultas recentes por esse ou aquele motivo, não encontrei um sequer que pronunciasse CATETER, ou seja, a forma oxítona correta dessa palavra. Todos eles a pronunciam CATÉTER, transformando esse vocábulo num paroxítono. No VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, registro oficial das palavras da nossa Língua no Brasil – ou nos dicionários não existe essa forma que os médicos e a maioria da população usam.

 
No entanto, não vejo como a forma original, a oxítona, cuja sílaba tônica é, portanto, a última – TER -, se manterá. A oposição a ela é quase maciça e irremediavelmente ela será derrotada. Um verdadeiro golpe engendrado contra ela.

 
NAMORAR x NAMORAR COM

 
Outra mudança que já vem ocorrendo na prática, inclusive pelos praticantes da norma-padrão, é o verbo NAMORAR. A raiz desse verbo é AM, que significa união. E sua ação pressupõe algo direto, num revezamento constante de agente/paciente. É um verbo transitivo direto; sem uso de preposição, portanto. Todavia, talvez porque psicologicamente nos neguemos a aceitar que a ação de namorar seja individual, o povo juntou a preposição COM a esse verbo, estabelecendo, assim, a companhia. Namorar alguém, que é tida como a forma correta, dicionarizada, vai perdendo espaço para o NAMORAR COM. Acho praticamente impossível que a forma considerada correta se mantenha como tal.

 
PREFERIR A x PREFERIR QUE ou DO QUE

 
Todos os livros de gramática e todos os professores de português afirmam peremptoriamente: quem prefere, prefere uma coisa A outra. E dizem mais: quem tem preferência, já tem preferência total, o que faz com que esse verbo PREFERIR também não aceite advérbios de intensidade. Essa é a norma. Agora vamos ao uso atual. Ouça e leia os falantes e produtores de textos escritos ao usarem esse verbo e, com certeza, constatará que uns 98% deles optam pelo QUE ou DO QUE no lugar do A. E muitos deles ainda dão ênfase à sua preferência com a expressão adverbial MUITO MAIS: “Prefiro muito mais rock do que sertanejo”. Como garantir então que a forma original, tida como correta, sobreviva a essa avalanche? Língua que não se transforma é língua morta. Portanto, prefiro as alterações linguísticas DO QUE a morte da língua. Ou seria A? E prefiro muito mais!

 

VERBOS DE AÇÃO x VERBOS DE QUIETAÇÃO

 
Outra alteração que vem sendo engendrada pelos usuários da norma-padrão é a inversão das preposições. Como se sabe, os verbos de ação regem a preposição A (quem vai, vai A; quem chega, chega A, etc.), enquanto os verbos de quietação regem a preposição EM (Quem mora, mora EM; Quem reside, reside EM, etc.). Entretanto, ninguém mais vai AO teatro e sim NO teatro; ninguém mais chega A casa mas sim EM casa, etc. E quem mora, segundo a pratica cartorial, mora A rua tal e não NA rua tal; reside A rua tal e não NA rua tal, etc. E o curioso é que essa nova regência se estende a adjetivos também: residente A rua tal e não NA rua tal. Se o povo assim vem usando, é questão de tempo que isso seja incorporado pela norma-padrão, por mais que lutemos contra. Como afirmou Drum mond, no poema O Lutador, do
livro JOSÉ:

 
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.

 
QUILO x KILO

 
Kilo, palavra de origem grega, significa mil: quilômetro (mil metros), quilograma (mil gramas). Desde 1971, no entanto, a letra K não vinha sendo usada na Língua. Foi reposta com o Acordo de
1990, implantado no Brasil em 2009 e agora de forma definitiva em 2016. No entanto, parece que o povo ignorou que a letra K não vinha sendo usada e ficou-se com a sensação de que havia um
QUILO oficial e outro KILO comercial. Nas feiras livres e no comércio em geral, tudo que é vendido por quilo de fato é vendido por kilo: “Caqui, 8,00 o kilo”. E, pelo menos, uns 95% dos restaurantes “self-service” também só usam KILO como medida de peso e nunca QUILO. Essa mudança depende de novo acordo ortográfico, mas, se depender do povo, a forma KILO já substituiu a QUILO. Aguardemos para ver o que vai acontecer.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 62