Conheça a Língua Portuguesa no Brasil dos primeiros séculos

Venha conhecer mais sobre a história da Língua Portuguesa e descubra como ela se tornou o idioma principal do País

Texto Maurício Silva | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

A questão idiomática no Brasil Colônia é, certamente, um dos temas mais complexos de nossa história. Para se ter apenas uma ideia dessa complexidade, pode-se lembrar que, no mesmo ano em que o Brasil foi “descoberto” pelos portugueses, um anônimo escrivão de armada de Caminha (provavelmente João de Sá) escreveu em sua Relação do Piloto Anônimo (1500) que os nativos que aqui viviam falavam uma língua que ninguém compreendia, “nem à fala nem por sinais”; cerca de oitenta anos depois, o jesuíta português Fernão Cardim afirmaria em um de seus Tratados da Terra e Gente do Brasil que “em toda esta província há muitas e várias nações de diferentes línguas”; quarenta anos mais tarde, o tema voltava à tona com a afirmação do padre António Vieira – em carta remetida ao superior geral da Companhia de Jesus, em 1626 de que o recém-falecido padre Gregório da Rocha, natural de Pernambuco, “sabia bem a língua da terra”, utilizando para a catequização dos índios. Mas, em meio a esse turbilhão de idiomas aqui falados nos primeiros séculos do Brasil colônia, como ficava a situação da Língua Portuguesa, tornada logo depois idioma principal do país já independente e hoje, em razão de ser a língua nativa da maior parte dos brasileiros, uma das línguas mais faladas no mundo? Essa é, certamente, uma história de muitos meandros, não podendo ser esgotada em poucas linhas, já que diz respeito a uma série de outros fenômenos político-linguísticos que tornam o tema ainda mais instigante – como a questão do multilinguismo na colônia, a implantação de uma política linguística pelos portugueses, a adoção de uma educação linguística pelos jesuítas, as relações diversas e, muitas vezes, controversas entre o português e substratos linguísticos indígena e africano e muitas outras.

 

O SURGIMENTO DE ESCOLAS
Antes de mais nada, o tema da questão linguística no Brasil colônia insere-se, necessariamente, no contexto socioeconômico e político aqui verificado desde o início. Com a chegada dos portugueses no século XVI, implantou-se por aqui um modo de produção assentado na exploração do pau-brasil e do açúcar, num sistema que procurava equacionar monocultura, mão de obra escrava e exportação; além disso, do ponto de vista político, optou-se pela formação das Capitanias Hereditárias (1534) e pela instalação do Governo Geral (1540); do ponto de vista social, o Brasil conheceu, desde cedo, a estratificação da sociedade em senhores de engenho, intermediários e pequenos comerciantes e escravos. Nesse contexto, os jesuítas acabaram atuando como catalisador das forças dispersas pelas províncias, colocando-se à frente do processo de catequização e escolarização dos habitantes da nova colônia portuguesa, atuando ainda no sentido de implementar
uma política linguística que, no final das contas, resultaria no predomínio, em todo o território nacional, do chamado português brasileiro. Práticas de ensino e leitura no Brasil colônia eram, naturalmente, precárias. A propriedade do livro, por exemplo, era algo inusitado numa região que se caracterizava, àquela altura, por ser mais um entreposto comercial do que uma colônia com dinâmica e vida “próprias”. Luiz Carlos Villalta, em estudo sobre o assunto, lembra que um dos maiores proprietários de livros no Brasil durante o século XVI, o italiano Rafael Olivi, possuia parcos 27 volumes; adicionalmente, um século depois, entre 450 inventários pesquisados, não se encontravam mais do que 55 títulos. Quanto ao ensino, este esteve desde o princípio nas mãos dos jesuítas que para cá vieram: já a partir da segunda metade do século XVI, fundam-se colégios ao longo de todo o litoral brasileiro. O primeiro deles, denominado Colégio da Bahia e,  posteriormente, Colégio dos Meninos de Jesus, foi fundado em 1551 e agrupava cerca de 70 alunos.

Há que se ressaltar, contudo, que a prática pedagógica dos jesuítas encontrava-se radicalmente ligada ao processo de catequização, além de pressupor uma visível distinção de classe: enquanto a instrução era oferecida aos filhos de colonos, que, no futuro, formariam a elite dominante da colônia, a pregação voltava-se para os filhos dos colonizados, que formariam, posteriormente, a mão de obra colonial. Particularmente no que se refere à implantação da língua portuguesa no Brasil colônia, a atuação dos jesuítica tive papel de relevo, já que ao inserir sua pedagogia de base humanista, filosófica e teológica no Brasil os jesuítas sentiram-se imediatamente obrigados a adaptá-la à nova realidade que se lhes apresentava, incluindo em seu currículo escolar, ao lado do ensino do tupi-guarani, o ensino do português, da religião, do canto orfeônico e outras disciplinas, embora o ensino do português fosse secundário diante das línguas nativas e do próprio latim. De qualquer maneira, conforme afirma Nancy Casagrande, em seu estudo A Implantação da Língua Portuguesa no Brasil do Século XVI, a pedagogia jesuítica visava, entre outras coisas, a “domesticação da língua indígena”, muito em função da implantação e consolidação da língua portuguesa no Brasil colonial. Desse modo, não é difícil perceber os inquebrantáveis vínculos entre a política educacional dos jesuítas e a manutenção de uma ideologia de dominação do território colonial, sobretudo por intermédio de uma cristianização que via na multiplicidade de línguas aqui presente um fator de desestabilização tanto do poder eclesiástico quanto do poder régio. Portanto, sistematizar e difundir a língua geral de base tupi entre os nativos e os portugueses que aqui viviam passa a fazer parte de um complexo processo de monopólio dos dogmas, dos símbolos e das representações imaginárias, processo que não dispensa, numa etapa posterior, a implementação do português como idioma dotado de razão e emoção suficientemente abrangentes para que se consolidasse aqui um amplo projeto de dominação e apropriação territorial, o que confere ao discurso jesuítico alto teor ideológico.

Esse projeto que, para além de ser linguístico, apresentava um nem sempre claro componente político-ideológico, pressupunha, entre outras coisas, a utilização de instrumentos linguísticos e pedagógicos diversos (dicionários, gramáticas, cartilhas etc.), não somente relacionados à língua portuguesa (como a Cartilha para Aprender a Ler, de João de Barros; a Cartilha para Ensinar a Ler as Doutrinas da Prudência, de Frei João Soares; ou as Regras para Ensinar a Maneira de Escrever a Ortografia Portuguesa, de Pero de Magalhães Gandavo) e ao latim (como o famoso De Institutione Grammatica, de Manuel Alvares), mas também às chamadas línguas dificultosas da colônia, isto é, as línguas indígenas e africanas que precisavam ser aprendidas para o sucesso da intercomunicação dos habitantes da colônia (como a Arte da Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, de José de Anchieta; a Arte da Língua Brasílica, de Luís Figueira; a Arte de Língua de Angola oferecida a Virgem Senhora N. do Rosário, de Pedro Dias; ou a Arte de Gramática da Língua Brasílica da Nação Kiriri, de Luís Vincencio Mamiani). Havia, além disso, os dicionários, como o Vocabulário da Língua Brasílica e o Dicionário Português-Brasiliano, ambos possivelmente escritos pelos jesuítas nos primeiros séculos da colonização brasileira, segundo o excelente estudo de José Horta Nunes, Dicionários no Brasil: Análise e História do Século XVI ao XIX.

 

 

COLÔNIA MULTILINGUÍSTICA
Na verdade, o que se buscava mesmo numa região tão grande e diversificada como era o Brasil, e ainda tão pouco explorada e conhecida, era a estabilização linguística, que não importava como fosse alcançada: se pela difusão das línguas indígenas, das africanas, das europeias – entre elas, o português – ou se por meio de uma língua franca nascida da simplificação de qualquer uma delas. Afinal de contas, falava-se uma infinidade de idiomas por aqui, transformando o Brasil numa verdadeira babel colonial. As línguas indígenas, por exemplo, contava com vários idiomas, provenientes dos troncos Tupi, Macro-Jê e outros. Falava-se, portanto, no Brasil, por ocasião da chegada dos portugueses, centenas de línguas indígenas, sendo que seus usuários podem ser separados, a princípio, em duas grandes comunidades de falantes, segundo o idioma que utilizavam: a dos tupis (falantes da língua geral ou tupi) e a dos tapuias (falantes das demais línguas). Essa divisão inicial logo foi corrigida, diante do grande número de idiomas falados em todo o território brasileiro, prevalecendo, contudo, o tupi como idioma usado no litoral e adotado pelos jesuítas em missões catequizadoras e empregado pela maioria da população brasileira até pelos menos o século XVIII. As línguas africanas, por sua vez, foram trazidas pelo grande contingente de negros escravizados, que podem ser, grosso modo, divididos em três grandes grupos culturais: os sudaneses, os mulçumanos ou malês e os bantos, com seus respectivos idiomas. Estudiosa do assunto, Margarida Petter destaca quatro grandes ciclos de aportes de escravos para o Brasil: o Ciclo da Guiné (século XVI), que trouxe os negros sudaneses; o Ciclo do Congo e de Angola (século XVII), que trouxe os negros bantos; o Ciclo da Costa da Mina (século XVIII), novamente com os negros sudaneses; e o Ciclo da Baía do Benin (século XVIII).

No total, esses aportes teriam atingido de 200 a 300 línguas diferentes, provenientes de duas grandes áreas: a oeste-africana (com a predominância do ioruba) e a banto (com a predominância do quimbundo). Além disso, há que se lembrar que, assim como se instituiu uma língua franca para os indígenas (o tupi jesuítico), os africanos trazidos para o Brasil como escravos também se utilizaram de línguas francas, possivelmente o nagô ou iorubá no Nordeste e o quimbundo no Sul. Finalmente, as línguas europeias, das quais se destaca – por motivos óbvios – o português, também tiveram sua presença no território brasileiro, aqui aportaram ao longo de todo o período colonial, como o francês, o holandês, o espanhol, o inglês e outros, conferindo à colônia portuguesa, especialmente no que compete à questão idiomática, um caráter verdadeiramente multilinguístico. No final de um longo processo de embate linguístico, prevaleceu em toda a colônia e, após a independência, no país, o português, que em sua vertente nacional pode ser, até certo ponto, chamado de português brasileiro, como já sugerimos antes. Língua transplantada, nos dizeres do filólogo Gladstone Chaves de Melo, em seu conhecido A Língua do Brasil, o português para cá trazido sofreu influências consideráveis de outros idiomas e culturas, não apenas em razão de condições históricas e geográficas específicas, mas sobretudo em função de condições sociais igualmente diversas e, por que não dizer, muitas vezes adversas…

 

 

***Adaptado de “Babel Colonial: A Língua Portuguesa no Brasil dos Primeiros Séculos”

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 50