Como temos falado de variação?

Em um contexto no qual se tem privilegiado a descrição de usos, a variação linguística vem constantemente recebendo mais destaque

Texto Andrei Ferreira de Carvalhaes Pinheiro | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Shutterstock

 

É possível olharmos para as línguas de diversas formas, a depender de como as entendemos: podemos nos voltar apenas para estruturas mais abstratas e generalizantes; podemos nos preocupar em ditar regras, posicionando-nos de forma mais segregacionista; podemos ter como objetivo a descrição de usos linguísticos reais, relacionando as funções dos elementos no discurso e as formas pelas quais são expressos. Em um contexto no qual se tem privilegiado a descrição de usos, a variação linguística, já bastante contemplada dentro da academia, vem constantemente recebendo mais destaque.
Mas de que maneira e sobre qual tipo de variação se tem falado? Já sabemos que, em alguns lugares do Brasil, se diz “tangerina” e que, em outros, se prefere “mexerica”, ou, ainda, “bergamota”. Também sabemos que tanto “mosquito”, quanto “muriçoca” e “carapanã” tendem a ser usados em referência àquele inseto que muito nos perturba. A essa variação – já tão discutida – chamamos de variação lexical: refere-se a uma mesma entidade do mundo por meio de itens linguísticos distintos.
Outra variação bastante conhecida chama-se fonética: Compreende as diferentes concretizações sonoras de unidades sonoras abstratas. Em termos menos técnicos, o –s em “cadeiras” pode ser produzido como o primeiro elemento
sonoro em “sapo” ou como o primeiro em “xícara”, dentre algumas outras possibilidades de produção, contextualmente condicionadas. De toda forma, sabemos que se refere a um –s e que se trata de mais de uma cadeira.
Há, também, variações morfossintáticas e sintáticas: estas se referem a como articulamos os grupos de palavras presentes nos nossos textos (sejam orais ou escritos), e aquelas agrupam formas distintas que surgem nos diferentes arranjos de palavras que compõem nossas frases. No entanto, será que temos falado destas variações propriamente?
No nível morfossintático, não nos surpreenderíamos se ouvíssemos alguém dizer: “Brasileiro adora falar ‘ver ela’, ‘jogar ele’, ‘amar ela’, ‘abraçar ele’”, atentando-se aos pronomes ‘ela’ e ‘ele’ em posição de complemento verbal e não de sujeito.
De fato, dizemos isso; mas essa não é a única alternativa do falante. Pesquisas linguísticas sobre complementos verbais na função de objeto direto de 3ª pessoa têm demonstrado que, em referência anafórica (ou seja, quando nos referimos a entidades que podem ser recuperadas nos nossos textos), nós preferimos a estratégia que se tem chamado de anáfora zero. Trata-se do não preenchimento da categoria sintática, como se vê em: Minha mãe me pediu que comprasse pão, mas esqueci de trazer ø do mercado. Podemos entender perfeitamente que não se trouxe “pão” do mercado, ainda que “pão” não esteja materializado depois de “trazer”. Na verdade, dizer “esqueci de trazer ele(s) do mercado” não seria esperado, devido à preferência por esse pronome em referência a seres animados.
Menos esperado ainda seria dizer “esqueci de trazê-lo(s) do mercado”, visto que, na fala brasileira, essa forma vem sendo cada vez menos usada e até pareceria pedante. Se fora da academia já não damos muita atenção à variação em nível morfossintático, menos ainda se fala sobre variações sintáticas. Pensemos sobre a sentença abaixo: A ideia de que eu te falei mais cedo ainda me parece boa. Trata-se de uma sentença possível? Certamente. Não é, contudo, a que mais produzimos, principalmente considerando dados de fala, como demonstram pesquisas linguísticas. A sentença em (3), por outro lado, já seria mais facilmente observada: A ideia que eu te falei mais cedo ainda me parece boa. E as possibilidades não se encerram nessas duas. Há, ainda, sentenças como (4): A ideia que eu te falei dela mais cedo ainda me parece boa. Brasileiros distintos, com maior ou menor probabilidade (dado o perfil social
de cada um), podem produzir todas essas sentenças, e todos, certamente, somos capazes de compreendê-las.

 

Entretanto, é verdade que, em contextos mais formais e, portanto, mais monitorados, estruturas como (2) têm melhor receptividade do que (3) e do que (4), respectivamente. Ainda assim, continuamos sem falar propriamente da variação linguística. Isso porque pode parecer que a língua é uma bagunça e que tudo é possível, o que não é verdade. Como exemplo, voltemos a (1), retomado aqui como (5): Minha mãe me pediu que comprasse pão, mas esqueci de trazer ø do mercado. Por que a anáfora zero se demonstra produtiva nesse contexto? Dentre outros fatores que atuam nessa variação, podemos destacar a manutenção da função sintática e a distância entre os referentes. Tanto em “comprasse pão” quanto em “esqueci de trazer ø”, “pão” – ou a retomada a “pão” por meio de um zero – é um complemento verbal na função de objeto direto. O fato de esse elemento se manter na mesma função sintática permite que ele continue “vivo” na mente dos interlocutores e que seja mais facilmente recuperável.

 

Consideremos, ainda, que as duas menções a esse referente estão muito próximas entre si, o que o mantém presente na memória de quem ouve ou lê. Assim, é plenamente compreensível que a retomada a “pão” se dê por uma anáfora zero. Como Givón (1983: 67) postulou: “Quanto mais previsível a informação, menos codificação linguística ela recebe”. Disso tudo, deve-se entender, principalmente, que nas línguas há, de fato, variação e para cada fenômeno variável, há motivações. Encontrar essas motivações é trabalho da Sociolinguística Variacionista, que, divulgando e discutindo resultados de pesquisas, visa à compreensão de que não há formas erradas de se falar: há formas diferentes.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 62