Autoridade e tolerância: grandes aliados para a formação

Autoridade: sem ela o homem não pode existir e, contudo, é coisa que traz consigo tanto de erro quanto de verdade

Texto Aline Fernanda Camargo Sampaio | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Shutterstock

 

Um dos maiores desafios que impera hoje, no meio educacional, é o de educar a geração contemporânea numa perspectiva ética, tendo em vista a construção de um novo homem e de uma nova sociedade.
Na grande obra da construção humana, a educação revela-se como uma exigência ética, que é fazer com que o indivíduo que se forma assuma uma responsabilidade solidária com a comunidade e com a natureza que o cerca, estando aberto à manifestação das diferenças.No entanto, a escola atual passa por uma série de entraves que interferem na motivação e dificultam uma boa atuação dos professores em sala de aula, como o número excessivo de alunos por classe, salários e condições aviltantes de trabalho, deixando-se de lado, muitas vezes, a preocupação com a formação ética dos educandos.
A escola, depois da família, constitui o espaço primordial do processo de socialização dos indivíduos. Segundo Hannah Arendt, não há vida humana sem ação e sem discurso e, desde o seu nascimento, o ser humano é desafiado a agir. É a ação, portanto, que cria a possibilidade da comunicação, do registro, da memória, da reflexão crítica, da história. Tal ideia encontra respaldo nas palavras de Nílson José Machado, que diz: “a exploração conceitual da ideia de ação como finalidade da Educação traz embutida (…) a questão fundamental da articulação entre a ação pessoal e a coletiva, entre a ação que me caracteriza como pessoa e aquela que realizo junto com os outros.”
Dentro dessa ótica, o projeto, como antecipação da ação, abre a possibilidade de um fazer consciente; abre as portas para uma articulação entre a ação pessoal e a ação coletiva, entre o interesse pessoal e o interesse coletivo, que constitui a ideia de cidadania. Além de Hannah Arendt, já citada, que caracteriza a ação como o modo de fazer do ser humano, Jürgen Habermas tem contribuído continuamente nesse sentido, desde seu denso trabalho Teoria da ação comunicativa, para disseminar uma ideia de ação que se contrapõe ao mero fazer instrumental. A ideia da ação comunicativa defendida pelo estudioso caracteriza-se como um fazer consciente, que visa essencialmente ao entendimento e não apenas ao êxito, ou à eficácia, do ponto de vista técnico. Herdeiro do pensamento kantiano, o filósofo alemão reconhece o valor da consciência autônoma, mas, à diferença de Kant que fundamenta a moral na razão reflexiva, que é monológica, ele descentra o sujeito, porque a ação comunicativa supõe o diálogo, a interação entre os indivíduos do grupo, mediada pela linguagem, pelo discurso.

 

Para Habermas, todo discurso deve ser proferido com sentido, podendo levar ao entendimento. Logo, a razão comunicativa estaria fundamentada na vivência de uma situação ideal de fala, em que a palavra é valorizada e circula amplamente entre os participantes do discurso. A confiança na palavra, na possibilidade de construção de consenso viabiliza a comunicação, constituindo a matriz da teorização habermasiana. Se cada ação corresponde a uma reação, o par indissociável da ação humana é a resposta, pertencendo efetivamente ao campo da responsabilidade. É o que afirma Nílson José Machado: “Somos humanos na medida em que respondemos por nossas ações; constituímo-nos como pessoas na medida em que assumimos a responsabilidade pelos nossos atos, e enfrentamos as consequências que deles advierem.”
Nessa perspectiva, pode-se dizer que a ideia de autoridade está associada à imensa responsabilidade assumida por todo aquele que inicia algo em alguém. Em suas diversas dimensões, a autoridade é exercida sempre dentro de certos limites, cuja ultrapassagem é a marca do autoritarismo. Logo, o exame das diversas dimensões da autoridade, propostas por Alexandre Kojève – o pai, o juiz, o chefe, o professor – pode servir para iluminar certas imbricaçõedas ações educacionais, permitindo que as responsabilidades sejam assumidas de modo consciente, sem prevaricação nem autoritarismo.
Na realidade, a autoridade do professor é construída diariamente e pressupõe liderança, coerência na ação, exemplo, retidão de caráter e, principalmente, competência. Tal competência está intimamente relacionada com a legitimidade do poder que é concedido ao docente no exercício de sua profissão — poder este necessário, e que, assumido de maneira justa e democrática, qualifica os alunos como agentes do processo em que são estabelecidas normas, a fim de que a convivência e a cooperação sejam possíveis.
Paralelamente, não se pode ignorar que o professor, a escola e os profissionais que ali atuam detenham o poder de formar cidadãos. E, mais ainda, que os professores podem e devem ter uma responsabilidade ética pelo que ensinam, transmitem e opinam. Desse modo, a questão do papel do professor ganha uma relevância ainda maior porque será a partir dele, de suas atitudes, da forma como lida com conteúdos, como elabora suas aulas, como se relaciona com seus alunos, que outros valores, vícios e virtudes poderão ser definidos. Vale lembrar, ainda, que as noções de autoridade e tolerância estão diretamente relacionadas, já que o caminho que conduz à tolerância é o do reconhecimento da imensa diversidade de projetos, pessoais e coletivos, e da absoluta necessidade de convivência
e comunicação entre os mesmos.
Dessa maneira, o exercício da autoridade e a inerente responsabilidade associada exigem o reconhecimento do outro, o respeito pelas diferenças, a confiança na palavra, na busca de consensos mínimos, uma fusão de horizontes que viabilize a tolerância. Por conseguinte, se a escola não está separada do mundo e a ética se constrói pela livre expressão de ideias e projetos no espaço das cidades e da cidadania, uma educação ética implicaria a formação de cidadãos por meio do livre exercício da atividade política ou a ampliação de espaços públicos de manifestação das diferenças.
Manifestação das diferenças
Assim, é fundamental que a escola, enquanto instituição educativa, sempre esteja aberta à manifestação das diferenças, tendo em vista que a experiência de mundo que cada um de nós possui é sempre limitada. Por isso, o professor nunca deve polarizar a atenção em apenas uma competência ou habilidade do aluno. Fazendo isso, o educador estaria repetindo a história ilustrada na parábola “Os cegos e o elefante”, ficando com uma visão unilateral e parcial de determinada pessoa ou situação, perdendo, com isso, a visão do todo. Nesse sentido, para haver a construção coletiva do conhecimento, é necessário que a relação educador-educando seja fundamentada numa perspectiva dialógica, buscando sempre o consenso entre as partes.

 

É inegável, também, a força que o comprometimento exerce nas relações humanas, como mola propulsora para a realização de sonhos. É o que Johann Goethe propõe em uma de suas belíssimas reflexões: Enquanto não tivermos comprometidos, haverá a hesitação, possibilidades de recuar e a sempre ineficácia. No momento em que, definitivamente, nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todos os tipos de coisas ocorrem para nos ajudar, que em outras circunstâncias nunca teria ocorrido. Todo um fluir de acontecimentos surge a nosso favor como resultado da decisão, todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda material. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar.
Manter o foco
Uma pessoa que se compromete com algo, envolve-se com a razão e com o coração naquilo que faz, mantendo o foco em seus objetivos, com responsabilidade. Da mesma forma, um professor comprometido com seu trabalho, também deve se envolver com a razão e com o coração naquilo que faz, partilhando o conhecimento com seus alunos, e despertando neles o desejo de construção de uma nova realidade. Por fim, uma escola se constituirá como uma instituição educativa na medida em que criar condições para que seus alunos se construam como seres solidários, com uma boa autoestima e que possam viver bem uns com os outros. E para que isso aconteça, é necessário que os profissionais que nela atuam busquem uma prática profissional calcada na autoridade, na responsabilidade e na tolerância.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 64