Aprendizagem significativa e ação do docente

Pensamentos errôneos daquele que ensina

Texto Júlio Furtado | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Shutterstock

 

Nos últimos 30 anos, temos assistido a algumas tentativas legislativas, de âmbito nacional e regional, voltadas para a mudança do paradigma de ensinar e aprender em nossas escolas. Essas tentativas se igualam entre si no tocante ao fato de que pouca ou nenhuma ação concreta é dedicada a promover a mudança de crença do professor. Como resultado, temos que as mudanças na política educacional têm influenciado muito pouco a prática do professor em sala de aula e, quando o faz, muitas vezes é por períodos breves de tempo. Estudos realizados nos Estados Unidos comprovaram que as barreiras que as crenças dos professores erguem quando se começa a implementar uma “nova política” são as grandes responsáveis pelo fracasso da implementação.
O modelo de aprendizagem que embasa as necessidades de nosso tempo não é mais o modelo tradicional que acredita que o aluno deve receber informações prontas e ter de, como única tarefa, repeti-las na íntegra. A promoção da aprendizagem significativa se fundamenta num modelo dinâmico, no qual o aluno é levado em conta, com todos os seus saberes e interconexões mentais. A verdadeira aprendizagem se dá quando o aluno (re)constrói o conhecimento e forma conceitos sólidos sobre o mundo, o que vai possibilitá-lo agir e reagir diante da realidade. Cremos, com convicção e com o respaldo do mundo que nos cerca, que não há mais espaço para a repetição automática, para a falta de contextualização e para a aprendizagem que não seja significativa.
A concretização dessa aprendizagem se dá através do que entendemos ser os cinco passos da (re)construção do conhecimento: o sentir – toda aprendizagem parte de um significado contextual e emocional, o compreender – é quando se dá a construção do conceito, o que garante a possibilidade de utilização do conhecimento em diversos contextos, o definir – significa esclarecer um conceito. O aluno deve definir com suas palavras, de forma que o conceito lhe seja claro, o argumentar – após definir, o aluno precisa relacionar logicamente vários conceitos e isso ocorre através do texto falado, escrito, verbal e não verbal, o transformar – o quinto e último passo da (re)construção do conhecimento é a transformação. O fim último da aprendizagem significativa é a intervenção na realidade. Sem esse propósito, qualquer aprendizagem é inócua.
As cinco fases apresentadas ajudam a caracterizar a ação do professor frente a esse desafio. A compreensão das atitudes a serem adotadas em cada etapa capacita o professor a promover a aprendizagem significativa. Na etapa “sentir”, a compreensão básica do professor precisa ser de que o aluno precisa construir um sentido real e concreto com relação ao conteúdo apresentado. Essa necessidade decorre de uma característica fundamental do cérebro humano, que é a totalização. O cérebro percebe primeiro a forma global, o contexto total do objeto. Dessa forma, não há aprendizagem significativa se não houver construção de sentido. A primeira preocupação do professor deve ser a de levar o aluno a construir o sentido do conceito no contexto de seu mundo.
Após sentir, o movimento natural do processo de aprendizagem é reunir tudo o que foi percebido, formando assim um conceito. Compreender é construir um conceito sobre algo, a partir da reunião das características e fatos percebidos. Nessa fase, o professor deve facilitar essa síntese. Aconselha-se que sejam desenvolvidas atividades que levem o aluno a manter a exploração do objeto para facilitar a expressão de uma síntese conceitual. Um exemplo: após manusear revistas, as crianças observaram fotografias de pessoas, lugares e coisas. Após diversas perguntas orientadoras da professora, as crianças constroem o conceito de substantivo.
Em seguida à construção do conceito, o aluno deve elaborar a definição. É im portante que o professor dê espaço para que essa definição seja livremente elaborada. Igualmente importante é respeitar a linguagem do aluno na construção de tal definição. O que importa nessa fase é que o aluno expresse o conceito da maneira que entendeu. É nesse ponto que professor e aluno terão condições de avaliar o nível de acerto na construção do conceito. Uma vez apropriado do conceito expresso através de uma definição, o aluno já está em condições de argumentar. A argumentação tem, como principal característica, a sedimentação através do encadeamento e do entrelaçamento do conceito recém construído e outros conceitos já existentes. Quando uma criança diz, por exemplo, que se não existissem os substantivos, não poderíamos nos comunicar pois não teríamos como dizer os nomes das coisas, pessoas, emoções e lugares, ela está construindo um raciocínio
argumentativo.
Ao conseguir argumentar, o aluno passa a reunir condições de transformar, que é a quinta fase da construção da aprendizagem significativa. Toda aprendizagem só é, de fato, significativa caso se insira de forma ativa na realidade. Intervir no real é o fim último da aprendizagem. A condução dessa fase passa pela atitude do professor de levar o aluno a simular sua ação num contexto real. Apresentar projetos, desenvolver novas ideias, resolver problemas, aplicar o conceito em sua vida prática são exemplos de atividades que se adequam à fase do “transformar”. Para vencer o desafio de promover a aprendizagem significativa, o professor precisa vencer algumas barreiras, representadas por crenças que ganharam força ao longo do tempo. Algumas dessas crenças são:
CRENÇA Nº 1: “Preciso arrumar o conteúdo para que o aluno aprenda”.

 

Essa crença impede que o professor confie na capacidade do aluno de organizar a sua própria aprendizagem. Dessa forma, o professor se mantém no papel de principal responsável pela aprendizagem. A neurociência já nos comprova que o cérebro aprende de forma desorganizada e caótica. É preciso que facilitemos essa ação do cérebro, desafiando-o a fazer novas ligações sinápticas. O principal papel do cérebro não é guardar informações, mas sim criar novas relações. A partir da mudança dessa crença, o professor vai compreender que seu principal papel não é dar
aulas, mas sim promover aprendizagem.
CRENÇA Nº 2: “Construir conhecimento dá muito trabalho”.
A crença nessa ideia leva o professor a se manter em seu estilo tradicional, acreditando que, na prática, não vai dar conta do novo paradigma. É uma crença bastante limitante, já que o impede de tentar e o mantém no mundo imaginário da impossibilidade. Um ponto que talvez mereça reflexão por parte do professor é o questionamento: o que dá mais trabalho, facilitar a aprendizagem ou impor a aprendizagem?
CRENÇA Nº 3: “E a bagunça, quem controla?”
Essa crença deriva de várias outras:
1- aprender é atividade passiva;
2- aprende-se de fora para dentro;
3- para aprender é preciso ficar quietinho;
4- quem aprende não interage, apenas recebe.

 

É preciso que se creia que a real aprendizagem só ocorre através da interação, do movimento. É preciso que se destrua, de uma vez por todas, o mito da passividade.

 

CRENÇA Nº 4: “E como fica o currículo?”
Essa ideia pode ser contraposta com uma única pergunta: Quem serve a quem? Temos um currículo a serviço da aprendizagem ou a aprendizagem deve estar a serviço do currículo? Como se supera as barreiras para uma efetiva promoção da aprendizagem significativa? É dispensável dizer que não há formulas, mas algumas dicas se mostram necessárias e úteis. Vencer as crenças já apresentadas é condição inicial. A partir da mudança de crenças, precisamos renovar o olhar sobre o caos, de forma que enxerguemos novos caminhos, novas ideias e novas possibilidades. Como última dica aos professores, é imperioso o autoconhecimento. Somente apropriando-nos de nossos limites e potencialidades é que vamos ganhar forças para nos tornar verdadeiros agentes de mudanças.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 62

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