Saiba como funciona a dinâmica amigos-anjos

Por Simone Vieira | Foto Shutterstock

Estou na sala de aula há cerca de 23 anos, tanto na rede de ensino particular como pública, atuando em todas as etapas de ensino fundamental, ensino médio e superior. Leciono na rede estadual de ensino do Estado do Rio de Janeiro no C. E. Dr Barros Barreto, na rede particular no Externato Campista (ensino médio) e na Universidade Estácio de Sá no curso de Pedagogia há mais de dez anos.

A cada instante a importância de agirmos como sujeitos de nossa própria história, atuarmos com responsabilidade, buscarmos interagir conhecimento, saber e vivenciar se torna imprescindível em nosso ofício. Sempre notei grandes resultados interagindo com educação e afeto, pois alcançamos nossos objetivos enquanto professores, mas também ganhamos amigos para a vida inteira.

Melhor chamar de “amigos-anjos”! Há dez anos realizo uma di­nâmica, que adaptei ao cenário da educação acadêmica, que chamo “Somos amigos-anjos, é tempo de cuidar”. Em todos esses anos, é cada vez maior a necessidade da aplicabilidade dessa dinâmica aos alunos universitários, nas relações mais simples e nas mais complexas, obtendo resultados extraordinários no processo ensino/aprendizagem. Utilizo-me de metodologias que me proporcionam dinâmicas e práticas educativas para que eu possa conhecer meus alunos e saber de suas histórias, memórias, as vivências que trazem e que fazem parte de sua leitura de mundo.

A dinâmica consiste em primeiramente todos os alunos se apresen­tarem uns aos outros, expondo suas principais características, sonhos, angústias, alegrias. Depois, os nomes de todos os alunos são colocados em uma caixa, e cada um sorteará um nome. Será total sigilo! Durante um período de dois a três meses, todos os alunos, uma vez por semana, irão escrever cartas, recadinhos, mensagens para o nome sorteado, identificando “seu anjo” como remetente, mantendo o sigilo até o dia da revelação. Essas cartinhas, lembranças e mensagens ficam depo­sitadas em uma caixa na sala e no final de cada aula da semana são distribuídas. É uma verdadeira festa! Muitos se preocupam em escrever exatamente aquilo que a pessoa precisa receber naquela semana, contribuindo para elevar a autoestima e ajudar na persistência dos sonhos, apesar das dificuldades. No dia da revelação, todos levam um anjo para presentear o amigo “que protegeu” durante a dinâmica. A mesma dinâmica eu aplico na rede de ensino estadual, com meus alunos do ensino médio. Em qualquer idade, é tempo de cuidar um do outro e fortalecer os laços afetuosos.

Certo dia, aplicando a dinâmica, me surpreendi com o depoimento de uma aluna, que disse que a experiência a fez superar uma depressão

e a motivou a dar continuidade ao curso superior de Pedagogia. Ela se viu importante e sujeito de sua própria história, e que não estava só nessa trajetória. Tive também alunas que, a partir desta dinâmica, se tornaram mais confiantes, queriam desistir do curso por inúmeros problemas pessoais e profissionais, porém, com o apoio dos “amigos-anjos” não desistiram de seus sonhos e seguiram em frente! Em outros casos, os alunos que se identificaram como educadores, e incentivados pela dinâmica iniciaram projetos voluntários em instituições como o Educandário dos Cegos em nossa cidade.

Muitas vezes, elaboramos dinâmicas e novas metodologias para uma melhor integração dos alunos e nos surpreendemos com os resultados obtidos, que alcançam uma plenitude muito maior do que imaginávamos. Considero muito importante na minha vida profissional proporcionar reflexões sobre nós mesmos e nossos atos no meio em que vivemos. Re­conhecermo-nos como sujeitos de nossa própria história e sermos capazes de transformá-la fazem a diferença, pois contri­buímos na formação de cidadãos responsáveis, críticos e afetuosos, sem perder de vista os valores humanos, as memórias, as tradições familiares, as vivências e culturas dos indivíduos que constituem nossas histórias cotidianas, garantindo o sucesso do processo ensino/aprendizagem.

 

*Simone Viana é pesquisadora e professora da Universidade Estácio de Sá e da rede de ensino pública e particular.

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 57