A Literatura em Histórias em Quadrinhos

Autores como Aluísio Azevedo (O Mulato ou O Cortiço) e Edgar Allan Poe (O Corvo), este mais conhecido por seus contos fantásticos, podem ser reapresentados em nova narrativa, da textual literária para a visual em História em quadrinhos (HQs). Confira!

Texto Edilaine Correa | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

Nos idos de 1969, em editorial da Revista Cultura Vozes afirmava-se que a “linearidade do livro teria sido ultrapassada pela maior carga de surpresa e informação da revista quadrinizada. Da década de 70 até agora, muitas reflexões foram e são feitas a respeito das HQs, se seriam puro entretenimento ou se podem ser utilizadas , por exemplo, em sala de aula como recurso pedagógico. Gonçalo Junior, jornalista e autor de livros sobre a história das HQs no Brasil, afirma que pioneiros como Adolfo Aizen tiveram participação importantíssima no segmento editorial nas décadas de 50 a 70, apresentando a “ideia de quadrinizar romances consagrados da literatura brasileira”. Enfrentamentos como de ordem financeira ou com a censura, culminaram em discussões sobre a “legitimidade das versões simplificadas de livros e a eficiência da narrativa ilustrada.” (2004, p. 284).

A título de exemplificação, apresentamos o conto Demônios de Aluísio Azevedo com a obra quadrinizada por Eloar Guazzeli ambos causando estranhamento, suspense e mistério além túmulo, ao folhear suas páginas. O conto azevediano, em termos de construção textual, narratividade e estética apresenta alguns elementos constitutivos da literatura presentes em O Corvo de Edgar Allan Poe. Azevedo deliberadamente assume em prefácio de uma de suas obras, A mortalha de Alzira ter se inspirado em obras europeias, pertencentes ao gênero fantástico, escrito por Gautier (La Morte Amoureuse) ou Poe, frequentemente traduzido por Machado de Assis, seu amigo pessoal. Semelhanças entre obras literárias europeias e brasileiras e suas tendências são sempre bem vindas para análise. Assim, a versão quadrinizada de Eloar Guazzelli, apresenta-se como oportuna para leitura, possibilitando avaliar essa reapresentação híbrida de texto, imagem e quadros. Tanto o texto quanto os quadrinhos, apresentam o protagonista tendo um pesadelo apocalíptico após adormecer enquanto escrevia algumas páginas de um livro novo. Acorda com certa sensação de estranheza, indefinidas pelo tempo, pois o relógio parou e o silêncio imperava no ambiente da pensão da qual era hóspede. Então, à luz de velas, resolve conferir o que aconteceu e constata que todos estão mortos. Assustado, lembra-se de sua noiva e sai a sua procura. Trôpego, aventura-se pisando em corpos putrefatos, chega à residência da amada encontrando-a morta por um breve instante, ressuscitada, no seguinte. Em desespero, o casal decide caminhar até o mar na tentativa de se salvarem, e no trajeto, uma série de transformações físicas acontecem, como uma involução das espécies, assumindo formas de animais, vegetais e minerais.

 

 
Essa estranha sensação, segundo Batalha, seria comumente notada em contos fantásticos, pois “através de uma série alucinante de metamorfoses grotescas que se desenvolvem ao longo da narrativa, a atmosfera de pesadelo contamina e preenche todo o espaço, invade a paisagem e todas as formas de vida, esbarrando nos limites da razão”. Sendo o conto original, uma narrativa de sensações que se passam num mundo de aspectos sobrenaturais, Demônios (conto) parece acompanhar especificidades estéticas dos movimentos expressionista e surrealista. Assevera Eisner, teórico em HQs que “o artista, para ser bem sucedido nesse nível não verbal, deve levar em consideração a comunhão da experiência humana e o fenômeno da percepção que temos dela, que parece consistir em quadrinhos e episódios”. Assim, no plano gráfico de Guazzelli, constatamos que as cenas fazem uso literal do texto trazendo, por exemplo, página dupla com sequência de olhares que refletem a aflição e o medo sentidos pelo protagonista. Ou páginas nas quais predominam cores escuras com círculos amarelados para demonstrar o alcance da visão que o protagonista tem dos cadáveres à luz da vela . O mesmo recurso é utilizado para demonstrar como o personagem encontra a pensão, ruas e tudo ao seu redor naquele momento. Para entender o que há além da simples leitura, no que diz respeito às divisões em quadrinhos e como ele talentosamente faz a transposição do conto, Eisner menciona que o “formato (ou ausência) do requadro pode se tornar parte da história em si. Ele pode expressar algo sobre a dimensão do som e do clima emocional em que ocorre a ação, assim como contribuir para a atmosfera da página como um todo”. (2001, p. 46) Constate como Guazzelli enriquece a leitura do conto, fiel ao original, revelando um trabalho que objetiva “despertar a própria reação do leitor à ação, criando assim um envolvimento emocional com a narrativa”. (idem, p. 59).

 

 
Enfim, tal como Azevedo estimula nossa imaginação como leitores do conto, linha a linha, da esquerda para a direita, sucessivamente, Guazzelli nos extasia sugerindo as imagens que elaborou para representar cada um dos detalhes, com cores e traços, quadro a quadro, transmitindo a sensação de opacidade e lugubrez do ambiente que se transforma, gradativamente. A criatividade de Guazzelli ao materializar as cenas e detalhes deste conto, expande nosso próprio repertório imagético podendo ir além dele tornando físico, palpável, concreto e formatado. Ele mesmo afirma que “toda literatura no fundo é fantástica porque transcende os limites do real. Realmente as histórias em quadrinhos constituem um território onde as narrativas fantásticas encontram enorme potencial de expansão. (GUAZZELLI, 2010, p.79).

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 58