A Linguagem verbal nas Histórias em Quadrinhos

As histórias em quadrinhos representam muito da linguagem do tempo em que foram publicadas. Mais do que a imprensa jornalística, são um registro da linguagem coloquial por meio dos tantos personagens que representam as mais diversas classes. Confira!

Texto Elísio dos Santos | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Que a linguagem verbal é flexível, vai sendo modificada por seu uso. Novas palavras surgem e desaparecem, como as gírias; outras são alteradas e há aquelas que ganham novos sentidos (“demorou”, por exemplo, hoje não significa que algo ou alguém esteja atrasado, mas indica alguma coisa boa). O brasileiro, na segunda década do século XXI, já não fala nem escreve como há meio século. Basta lembrar a geração da Jovem Guarda, que usava as expressões “bicho”, “mora” ou “broto”. Embora seja norma gramatical, não usamos mais a mesóclise, porque esse tipo de construção envelheceu. O desenvolvimento da informática também contribuiu para que palavras antes inexistentes, a exemplo de “deletar”, fossem incorporadas ao dicionário, ou que novos significados fossem dados a “baixar” ou “vírus”. “Navegar”, em tempos de internet e de redes sociais, ganha o sentido de passar de um hiperlink para outro, de uma página ou informação para uma nova, percorrendo um espaço virtual de conhecimento. Essas mudanças na fala e na escrita se devem sobremaneira aos meios de comunicação de massa, que produzem novas formas de expressão verbal, como os bordões repetidos em programas humorísticos ou nas telenovelas, e, por causa de seu alcance, repercutem e disseminam para um vasto público as palavras que entram na ordem do dia. E as histórias em quadrinhos fazem o mesmo. Percebidas em seu contexto histórico e cultural, as histórias em quadrinhos influenciam o meio social em que se inserem e são influenciadas por ele.

 

Na década de 1980, quando o Brasil passava pelo processo de redemocratização, a cidade de São Paulo assistiu à emergência de uma produção cultural independente na música (o teatro Lira Paulistana, que depois se tornou uma gravadora), no cinema (pequenas produtoras que se localizavam principalmente na Vila Madalena), no teatro (a companhia Ornitorrinco) e nos quadrinhos, com a criação de pequenas editoras que publicavam quadrinhos alternativos de autores estadunidenses, europeus e brasileiros. Entre essas editoras, destaca-se a Circo Editorial, que iniciou suas atividades em 1984, justamente no dia em que a Emenda Dante de Oliveira, que estabelecia eleição direta para presidente da República, foi rejeitada pelo Congresso Nacional, e fechou onze anos depois, devido à crise inflacionária que estagnou a economia do país. Seus títulos mais conhecidos foram as revistas Circo, Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Striptiras e Geraldão. Tendo entre seus principais colaboradores os artistas Luiz Gê, Laerte, Angeli e Glauco, em sua maioria paulistanos ou moradores da capital, era usual, portanto, o uso de um humor urbano e a incorporação de termos bastante repetidos na época em São Paulo. Expressões com “pusta” tornam-se interjeições, neste caso indicando algo grande ou inusitado. Trata-se de uma variação de “puta” (no mesmo sentido), de “putz” ou da gíria “putz grila”. Elementos de oralidade encontram-se presentes nos diálogos: “prá” é a contração de “para” e “praquê?” deriva de “para quê?”, enquanto “num”, por exemplo, é a corruptela de “não” e “magina”, de “imagine”. Tratamentos carinhosos são usados pelos personagens de Glauco: Geraldão chama sua mãe de “manhê”, e o homem e a mulher que formam o Casal Neuras, em constante guerra conjugal, se tratam por “benhê”. Já os Skrotinhos, personagens criados por Angeli, empregam em suas falas jargões e neologismos típicos das ruas e botecos que frequentam. Na tira Os Gatinhos, de Laerte, “dar umas bandas” significa “sair” ou “passear”.

 

Na história “A noite é uma criança estúpida e malcriada”, realizada por Laerte, dois jovens comentam a respeito do barzinho que se tornou a nova moda. Para descrever o lugar, o rapaz refere-se a ele como “dí-mais”, dando ênfase com a separação silábica e com a mudança na ortografia que obedece à sonoridade, alterando “de” por “dí”. O autor também usa um recurso gráfico: ele representa o título da narrativa com letras de forma em branco sobre fundo preto, como se fossem palavras escritas com giz em uma lousa, indicando serem os protagonistas estudantes. O cartunista Glauco colocava nos diálogos ou nas histórias de seus personagens aumentativos e diminutivos: em plena redemocratização do país, Tadeuzinho era o “candidato tímido”, que tinha medo de se expor aos eleitores, e Tadeuzão, por sua vez, tinha por alcunha “o candidato nada tímido”. Esses substantivos indicam o grau de acanhamento ou de desembaraço dos pretendes a cargos públicos. Já as histórias protagonizadas por Geraldão, principal criação do artista, mostravam o anti-herói surfando pelo apartamento com uma tábua de passar (“surfistão”), observando sua mãe tomar banho (“edipão”), imaginando-se grávido (“gravidão”). E, nas aventuras vividas em sua infância, ele é chamado de Geraldinho. Realizadas a seis mãos por Angeli, Laerte e Glauco (depois também com a participação de Adão Iturrusgarai), as aventuras de Los Tres Amigos inspiraram-se na comédia hollywoodiana Three Amigos!, dirigida em 1986 por John Landis, contando em seu elenco com Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short, três atores estadunidenses desempregados que fazem trapalhadas em um vilarejo do México. Nos quadrinhos, os personagens são caricaturas dos autores, que falam “portunhol” (mistura de português e espanhol), para acentuar o tom humorístico e de deboche. A língua portuguesa também é misturada ao inglês em alguns títulos e diálogos. Os próprios artistas faziam autocaricaturas e os personagens recebiam nomes pretensamente hispânicos, como Angel Vila, Laertón e Glauquito.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 58