A Língua falada e escrita

Fala e escrita são práticas e usos da língua com características próprias, mas não suficientemente opostas para caracterizar dois sistemas linguísticos. Saiba mais!

Texto Flavio Biasutti Valadares | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

A nossa língua, então, é a linguagem que usa a palavra como sinal de comunicação, isto é, um aspecto da linguagem, um sistema de natureza gramatical, pertencente a um grupo de indivíduos, formado por um conjunto de sinais (as palavras) e por um conjunto de regras para a combinação destes. A fala é uma prática social de interação para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora, indo desde uma realização informal à mais formal nos mais variados contextos. A escrita caracteriza-se por sua construção gráfica, com um modo de produção textual discursivo para fins comunicativos com certas especificidades. O professor titular em linguística do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco Luiz Antônio Marcuschi explica, com muita propriedade, que fala e escrita não são propriamente dois dialetos, mas sim duas modalidades de uso da língua, visto que as relações entre uma e outra não são dicotômicas; são os usos que fundam a língua e não o contrário e o que determina a variação em todas as suas manifestações são os usos que fazemos da língua. Assim, fala e escrita são práticas e usos da língua com características próprias, mas não suficientemente opostas para caracterizar dois sistemas linguísticos. Elas se apresentam como fenômenos interativos e dinâmicos, como processos diferentes. Ingedore Koch e Marcuschi, em suas pesquisas, afirmam que a escrita não pode ser tida como uma representação da fala, já que ambas permitem a  construção de textos coesos, coerentes, elaboração de raciocínios abstratos e exposições formais e informais, variações estilísticas, sociais, dialetais e são atividades comunicativas e práticas sociais situadas, isto é, algumas das diferenças entre a fala e a escrita localizam-se em relação ao contexto, à intenção do falante ou do escritor e ao tópico do que se diz ou escreve.

 

 

Travaglia aponta como principais características da língua falada a simplicidade de suas construções, a menor complexidade; a presença de truncamentos, hesitações, repetições e retomadas correções que não aparecem no escrito; a possibilidade de se usar uma série de recursos do nível fonológico que no escrito não funcionam (entonação, ênfase de termos ou sílabas, duração de sons); as reações do interlocutor são “ao vivo”; é possível também impedir que alguém tome o turno antes que se termine a fala; e existe o uso de marcadores conversacionais (Ah!, né?, certo?) com maior frequência. Na perspectiva sociointeracionista, fala e escrita apresentam, conforme Marcuschi, dialogicidade, usos estratégicos, funções interacionais, envolvimento, negociação, situacionalidade, coerência e dinamicidade. A partir dessas características, é relevante ressaltar que tanto a fala quanto a escrita, em todas as suas formas de manifestação textual, são  normatizadas, não operam nem se constituem numa única dimensão expressiva, são multissistêmicas (gestual na fala; forma das letras na escrita). Assim, como assevera Koch, existem textos escritos que se situam, no contínuo, mais próximos ao polo da fala conversacional (bilhete, carta familiar, textos de humor), ao passo que existem textos falados que mais se aproximam do polo da escrita formal (conferências, entrevistas profissionais), existindo, ainda, tipos mistos, além de muitos outros intermediários. Nesse ponto, é digno de nota que a passagem da fala para a escrita não é a passagem do caos para a ordem, é a passagem de uma ordem para outra ordem. Apontamos então que as diferenças entre fala e escrita ocorrem em um contínuo tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois polos opostos; ou seja, as estratégias de formulação é que determinam o contínuo das características que produzem as variações das estruturas textuais e discursivas, assim como as seleções lexicais, o estilo, o grau de formalidade, disso surgindo semelhanças e diferenças ao longo de contínuos sobrepostos.

 

 

 
Na graduação, o docente precisa trabalhar o conteúdo acerca de língua falada e língua escrita sob uma perspectiva que dê conta de explicitar ao aluno como utilizar cada uma das modalidades, a fim de que ele obtenha êxito em suas atividades pragmático-textual-discursivas. É importante que o graduando entenda em que ambientes linguísticos poderá/ deverá usar determinado gênero textual, bem como a modalidade adequada àquele contexto, compreendendo que não se pode escrever como se fala e nem falar como se escreve. No ensino básico, não é diferente! O professor de Língua Portuguesa, mas também todos os outros de todas as outras disciplinas, precisam ter formação em linguagem para compreender a importância das diferentes formas de uso da língua. Não se pode pensar que a escrita é melhor ou é pior que a fala: elas são processos distintos, como já comentado aqui. O que vai fazer de um falante/escritor competente no uso da língua é justamente sua habilidade para saber utilizar a língua falada e a língua escrita de acordo com o que se espera do ambiente linguístico em que está. Portanto, fala e escrita se fundam no processo de produção de seus textos, sendo necessário partir de um componente de ordem funcional na análise da relação fala-escrita enquanto modalidades de uso da língua, pois é no uso que a língua se efetiva, tanto na fala quanto na escrita, e que são determinados sentidos e formas de produção pragmático-textual-discursivas.

 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 51