A importância semântica das Locuções e Expressões

Voltando a atenção para a importância semântica de locuções e expressões fundamentais na comunicação correta

 

Introdução
O objetivo deste articulista (inclusive retomando algo sobre o qual já falei mais longamente tempos atrás, revista edição # 31, cuja leitura recomendo), é apenas voltar a chamar a atenção para a importância semântica de locuções e expressões, tão fundamentais na comunicação quanto as palavras propriamente ditas. Não se esgotará o assunto, pois, além de isso não se enquadrar num simples artigo, não é essa a finalidade.

 
O conjunto das palavras, locuções e expressões usadas por um povo para a sua comunicação é um ótimo conceito para a palavra língua. Palavras, locuções e expressões compõem, na Linguística
básica, o eixo cartesiano paradigmático, em outras palavras, o eixo das escolhas. O eixo das escolhas? Notemos a frase abaixo:

 
A linda garota não compareceu ao evento.

 

No lugar de “A linda garota”, seria possível ter usado “Ela”, “Gabriela”, “A jovem”, etc. No lugar de “compareceu”, poder-se-ia usar “veio”, “faltou”, omitindo-se o “não”, etc., etc., ou seja, a língua nos oferece várias possibilidades para que componhamos uma frase, um parágrafo, um texto. O processo de — entenda-se isso metaforicamente — manuseio ou manipulação das palavras, locuções e expressões na forma horizontal, para a geração da mensagem, chama-se sintaxe. Sim, aquela mesma sintaxe que antigamente se ensinava na escola brasileira, destacando-se as funções das palavras na oração, a classificação das orações que compõem um texto e as regências e concordâncias verbal e nominal. Esse processo corresponde ao eixo sintagmático da língua.

 
Num processo de comunicação, precisamos dominar bem o eixo sintagmático e no mínimo razoavelmente o paradigmático. Para esse último, podemos lançar mão dos dicionários e do VOLP — Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Para o sintagmático, já vamos adquirindo essa capacidade desde as primeiras palavras que ouvimos de nossos pais, parentes e amigos, mas o que o desenvolve exponencialmente é a leitura. Faça a seguinte experiência e perceberá a importância da sintaxe para uma língua. Decore, digamos, da língua alemã, o significado de um conjunto de duzentas palavras. Em seguida, tente formar frases com elas. Perceberá sua impotência, pois lhe falta o domínio das possibilidades sintáticas da língua alemã, ainda mais difícil para nós, porque calcada em casos, como era o latim clássico, já esquecido pela grande maioria dos brasileiros. Em outras palavras, sem o domínio das escolhas e, principalmente, da estruturação sintática, não comunicamos ou comunicamos muito mal.

 
VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

 
Pelas leituras de apresentações das várias edições do VOLP brasileiro, podemos concluir que a 5.ª edição, de 2009, a mais recente e já com adaptação ao Acordo Ortográfico, implantado em 2009 e definitivamente em janeiro de 2016, traz por volta de, no mínimo, 350 mil verbetes ou palavras. A Academia Brasileira de Letras, no entanto, diz, no seu sítio, que são 381 mil entradas e que a única diferença entre o VOLP físico e o digital, ali disponibilizado, é que no digital já há a incorporação da errata ao físico. Só não sabemos quantos desses verbetes referem-se às palavras da nossa Língua, já que ele também apresenta relação de palavras estrangeiras por nós usadas. Fiquemos, no entanto, com o oficial: 381 mil entradas.

 
Comparemos e nos admiremos: se sabemos que, em 1803, tínhamos pouco mais de 40 mil palavras, segundo nos informa Jerônimo Soares Barbosa, na ‘Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza’, 4.ª edição, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1866, p. 16, e que, em 1909, com a publicação do Vocabulário Ortográfico e Ortoépico da Língua Portuguesa, de Gonçalves Viana, havia 90 mil palavras, dá para ver a evolução geométrica do número de palavras em Português nesses duzentos anos.

 
No entanto, nem o VOLP nem os dicionários tradicionais registram ou falam das locuções e expressões (o Houaiss até fala, mas são, relativamente poucas), que têm, de fato, a mesma importância das palavras e as substituem nos casos em que essas não existem.

 
Vejamos uma situação. Peguemos uma peça do nosso vestuário comum, uma camisa, por exemplo. Podemos indicar a cor e outros atributos dela usando um simples adjetivo: camisa azul, listrada, curta, grande, comprida, etc. No entanto, se quisermos indicar o material do qual ela é feita, algodão, por exemplo, não há um adjetivo próprio, não existe camisa ‘algodoenta’, algodoeira, ‘algofabril’, etc.

 
Nesse caso, só há uma solução: lançar mão de uma locução, ou seja, um conjunto de, no mínimo, duas palavras que formam um conglomerado linguístico e preenche a lacuna deixada pela ausência de uma palavra própria: camisa de algodão. Como se vê, locução adjetiva (já que substitui um adjetivo, qualificando e distinguindo o substantivo ‘camisa’ de outras camisas) formada por uma preposição e um substantivo.

 
E locuções pronominais como quem quer que, cada qual, seja qual for, etc. também entram no rol de elementos indispensáveis para o entendimento da mensagem. E isso ocorre, de fato, com qualquer tipo de locução.

 
E o que dizer de locuções adverbiais empregadas para expressar circunstâncias que o advérbio correspondente, ou quase correspondente, não consegue caracterizar com precisão, como naquela época, o mais depressa possível, em 2010, etc. Enfim, as locuções e expressões não estão no VOLP, mas são tão imprescindíveis para a nossa comunicação como as palavras.

 
Classes de palavras e locuções

 
No eixo paradigmático citado acima, a língua nos oferece dez classes de palavras, cada uma com finalidade específica. A palavra que nomeia os seres e as coisas é o substantivo; a que o qualifica e o distingue de outro de mesma espécie é o adjetivo; a que indica os acontecimentos é o verbo; a que indica as circunstâncias, ou seja, os fatos secundários que acompanham o fato principal, é o advérbio; as que conectam palavras e orações, estabelecendo relações entre elas, são, respectivamente, as preposições e as conjunções; etc.
Dessas dez classes, só o artigo não apresenta locução. As demais apresentam locuções e expressões: substantivas, adjetivas, numerais, pronominais, verbais, adverbiais, prepositivas, conjuntivas e interjectivas.

 
Locuções verbais

 
As palavras e locuções se distribuem em dois grandes reinos linguísticos: o dos nomes e o dos acontecimentos. Desses reinos, o substantivo é o rei do reino dos nomes e nomeia todas as coisas e seres. O substantivo tem quatro súditos: artigo, adjetivo, numeral e pronome.

 
Já o verbo é o rei do reino dos acontecimentos. Tem um súdito, o advérbio, que indica as circunstâncias, ou seja, os acontecimentos secundários que acompanham os principais, indicados pelo verbo. Sempre no comparativo entre os dois reis, o substantivo é variável em gênero (masculino, feminino e neutro), número (singular e plural) e grau (aumentativo e diminutivo). Já o verbo é a palavra que apresenta o maior número de flexões de nossa Língua: modo, tempo, pessoa, voz, número e aspecto.

 
As locuções verbais, muitas vezes, trazem ideias que o verbo sozinho não consegue. Vejamos alguns poucos casos.

 
Numa frase como “Eu caminhava todos os dias da semana”, o verbo no pretérito imperfeito do indicativo aqui tem a equivalência de um presente do passado, ou seja, mostra apenas um ato que acontecia corriqueiramente. O verbo no presente também expressa isso, ou seja, em eu falo, eu durmo, eu ando, eu passeio, etc. os verbos não estão indicando o verdadeiro presente, isto é, a concomitância entre a comunicação e a ação, mas sim algo que ocorre normalmente. Para indicar essa concomitância, teremos de lançar mão de uma LOCUÇÃO VERBAL:

 
Eu estou caminhando. Silêncio! Estamos lendo!

 
Compare a frase “Eu caminhava todos os dias da semana” com algo parecido: “Eu estava caminhando naquele momento”. Na segunda frase, a locução verbal nos faz pressupor a existência de algum acontecimento simultâneo à caminhada, digamos, “Eu estava caminhando quando o fantástico fenômeno aconteceu!”. Nesse caso, é possível usar o verbo simples, “caminhava”, mas se perde a expressividade.

 
Outra diferença expressa por uma locução verbal fica clara nas frases a seguir. Em “Faz dois anos que ela partiu”, não há nenhuma dúvida da exatidão do tempo: dois anos. Já em “Deve fazer dois anos que ela partiu”, o enunciador não tem certeza do tempo exato. Só a locução é capaz de nos passar essa insegurança temporal. Da mesma forma, em “Deve haver duzentas pessoas no recinto” ocorre diferença gritante em relação a “Neste recinto, há duzentas pessoas”. Na segunda, afirma-se com exatidão; na primeira expressa-se a dúvida. Alguns dirão que isso é óbvio! Concordo, e isso garante a tese deste artigo: há coisas que as locuções expressam e as palavras simples não conseguem. Há diferenças também entre “Deve estar chegando a tão esperada mercadoria!”, que expressa mais dúvida do que certeza, bem oposta à afirmação indicada em frase análoga: “Está chegando a tão esperada mercadoria!”.

 
Considerações finais
Para a tese deste artigo, chamar a atenção para a importância semântica das locuções e expressões, creio que as exemplificações e comentários conseguiram mostrar tal aspecto. No entanto, há milhares de outras situações que nem de longe abordei aqui.
Deu-se maior ênfase às locuções verbais, mas o fenômeno é natural com todos os tipos de locuções e expressões. De repente alguém se entusiasma lendo este artigo e parte para alguma coisa mais profunda, algo como um dicionário de locuções e expressões. E se de repente já existe tal obra, peço desculpa, mas eu nunca encontrei. Bom trabalho.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 64