A história em quadrinhos na sala de aula

Não é mais novidade hoje falarmos da presença das histórias em quadrinhos (HQs) no campo da educação. Veja como esse recurso é aplicado

Texto Ana Sílvia Moço Aparício | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Fazendo uma breve retrospectiva sobre o uso das HQs na sala de aula da Educação Básica, lembramos que sua entrada nas escolas não foi feita de forma tão pacifica. Não só no Brasil, mas em vários outros países houve muita resistência quanto ao uso dos quadrinhos no contexto pedagógico, com a alegação de que o conteúdo fantasioso e o excesso de imagens e cores não eram características adequadas para a leitura das crianças e jovens e, portanto, prejudicariam o “amadurecimento” desses leitores. Mas aos poucos essa resistência foi se desfazendo, no caso do Brasil, sobretudo em função das próprias mudanças e transformações no campo da educação que, a partir de meados do século XX, alteraram fundamentalmente a população escolar, exigindo redefinições das concepções de ensino e aprendizagem, de currículo, de conteúdos, enfim, das tarefas do professor frente aos seus aprendizes. Por outro lado, vale lembrar que o processo de evolução do gênero textual “História em quadrinhos” também contribuiu para mudanças quanto ao ponto de vista sobre as HQs tanto no contexto das ciências da comunicação e dos estudos culturais, quanto no contexto educacional. As HQs passam a ser reconhecidas como forma de manifestação artística com características próprias e, assim, passam a ser valorizadas social e culturalmente.

 

Dessa forma, a busca de novos paradigmas educacionais capazes de responder às necessidades e desafios colocado  para o ensino, e a valorização das HQs como formas de expressão artística e literária que articulam linguagem verbal e não verbal, por meio de narrativas tendo como referência a experiência humana constituem um contexto propício para uma verdadeira aproximação desse gênero com o ensino. Prova disso é o reconhecimento oficializado das HQs pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que propõe o trabalho com esse gênero na escola e, mais recentemente, o Programa Nacional da de Biblioteca na Escola (PNBE), que incluiu as HQs entre as obras distribuídas nas escolas públicas de nosso país. Cabe destacar também a intensa utilização dos quadrinhos nos livros didáticos das diferentes disciplinas, principalmente a partir da década de 1990, quando se confirmam as várias possiblidades de seu uso didático. De fato, não há como negar que hoje as HQs são um dos gêneros de texto mais utilizados no contexto escolar, não apenas no Ensino Fundamental I e II, como também no Ensino Médio, principalmente como estratégia para incrementar a fluência na leitura e/ou incentivar nos jovens o gosto pela leitura dos clássicos da literatura.

 

Atualmente, existem excelentes trabalhos de transposição em quadrinhos de obras clássicas da literatura. Contudo, temos observado, no trabalho recorrente com as HQs em sala de aula, uma perspectiva bastante utilitarista, isto é, os quadrinhos sendo utilizados como pretexto para o ensino de conteúdos curriculares, em uma situação que envolve quase que exclusivamente a exploração de seu conteúdo temático. Com isso, deixa-se de abordar esse gênero, em sala de aula, como uma forma de linguagem, com os recursos diversos de sua estrutura e funcionamento, os contextos de produção e as formas de circulação. A presença das tecnologias digitais em nossa cultura contemporânea cria novas possibilidades de expressão e comunicação. Cada vez mais, elas fazem parte do nosso cotidiano e, assim como a tecnologia da escrita, também devem ser apreendidas. Além disso, as tecnologias digitais estão introduzindo novos modos de comunicação, como a criação e o uso de imagens, de som, de animação e a combinação dessas modalidades. Tais procedimentos passam a exigir o desenvolvimento de diferentes habilidades, de acordo com as várias modalidades utilizadas, criando uma nova área de estudos relacionada com os novos letramentos, os chamados multiletramentos. A perspectiva atual dos multiletramentos na escola propõe a leitura e a produção de textos que combinam vários modos semióticos, como o linguístico, o imagético, o sonoro, o espacial, entre outros. Essa abordagem requer que os alunos se transformem em criadores de sentidos, isto é, que não sejam apenas receptores passivos de textos. Para isso, é preciso que os nossos alunos também produzam textos multimodais ou multissemióticos, como o são as HQs. Vale lembrar que, com o surgimento das novas mídias digitais, as HQs passam a circular também no meio virtual, com temáticas, estilos e recursos diversos.

 

É, então, no processo de produção que os alunos têm a oportunidade de explorar como se produz a informação, o contexto social e cultural da informação, os meios de produção, e com quais propósitos. Dessa forma, podem fazer uso de ferramentas de acesso à comunicação e à informação que já utilizam e convivem em sua vida cotidiana. No caso das HQs, como destaca M. R. de S. Mendonça (em seu texto publicado no livro Gêneros textuais e ensino, editora Lucerna), do ponto de vista visual, é fácil identificarmos esse gênero devido a sua composição em quadros, desenhos, balões etc. Mas se considerarmos o seu funcionamento discursivo, veremos que não é tão simples assim, pois os quadrinhos envolvem uma diversidade de temas, estilos e esferas de circulação, além de envolver diferentes semioses, na articulação do verbal e não verbal. Por isso, é importante que o trabalho pedagógico com as HQs leve em conta não apenas os elementos temáticos, mas a relação de todos os aspectos verbais e não verbais que envolvem a produção das HQs, considerando os diversos contextos comunicativos de uso desse gênero  de texto.

 

Assim, nas atividades de produção de HQs, é preciso criar situações que permitam aos alunos construir o seu “projeto de dizer”, ou seja: “o que dizer”, “para que” e “para que” dizer, e “como dizer”, selecionando novas ferramentas. Só assim, por meio de um conhecimento prático, os nossos alunos atuarão como criadores de sentido e poderão entender, de fato, como diferentes linguagens e tecnologias operam. E ainda mais: poderão entender que tudo o que é dito é fruto de uma seleção prévia pelo autor/produtor. A utilização dessa abordagem, na escola, vai contribuir para uma atitude transformadora do aprendiz, quando ele usa o que foi aprendido de novos modos. Acreditamos que as HQs são um gênero bastante propício para um trabalho com essa perspectiva. Para isso, é essencial o desenvolvimento de projetos didáticos interdisciplinares, ancorados em práticas que fazem parte das culturas do alunado relacionando-as com outras, de outros espaços culturais (públicos, de trabalho, de outras esferas e contextos). De qualquer forma, para buscarmos o desenvolvimento de práticas transformadoras, seja na recepção ou produção de HQS,
precisamos assumir os princípios da pluralidade cultural e da diversidade de linguagens tão presentes no nosso mundo atual.

 

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 58