A herança linguística do povo africano em Pernambuco

Num país miscigenado por europeus e índios, é impossível não destacar as contribuições do povo que também ajudou a construir o Brasil, o povo africano.

Texto Edmilson José de Sá | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Divulgação/Shutterstock

Uma parte não muito pequena da população do Estado de Pernambuco é resultado de misturas étnicas, a começar pelos povos indígenas que já habitavam o território, desde os tempos mais remotos até o século XVI. Enquanto no litoral, sobressaíam-se os tupi-guaranis, a exemplo dos Tupinambás, Tabajaras e Caetés, no interior viviam grupos do tronco Jê como, por exemplo, os Tapuias. Junto a eles, vieram europeus, como portugueses e holandeses, além dos africanos trazidos para o trabalho escravo, mas que contribuíram sobremaneira com a formação do Estado atualmente e, por extensão, com a formação de todo o país.
Pernambuco e as raízes africanas
É senso comum afirmar que grande parte da população nordestina é formada por descendentes de africanos e, no caso de Pernambuco, esses povos eram comprados em suas terras de origem e trazidos para o Estado pelos portugueses para trabalhar como escravos nos canaviais, nos engenhos de açúcar, nos campos de criação de gado e nas casas dos senhores das terras e dos engenhos e o número de escravos aumentava consideravelmente, graças ao crescimento dos canaviais.
“Todo o debate agora é sobre Angola, e é matéria em que não hão de ceder, porque sem negros não há Pernambuco, e sem Angola não há negros, e como nós temos o comércio do sertão, ainda que eles tenham a cidade de Loanda, temem que, se nós tivermos outros portos, lhes divertamos por eles tudo.” Padre Antônio Vieira (1608 – 1697)
Tal previsão fora constatada quase dois séculos depois, na vinda de escravos desse país no início do século XIX, em comparação com número levado ao Pará e ao Maranhão:

Os dados apontados, contudo, não eximem a vinda de vinda de escravos de outros países africanos, pois desde os anos 1970, estudiosos mencionavam evidências indiretas que sugerem que vários milhares de escravos de Benguela podem ter ido para Pernambuco, entre 1817 e 1825, um período das importações que são inteiramente desconhecidas, além de serem também provenientes de Luanda e do Sudão.
Após chegarem ao Estado, a despeito da ‘recepção’ a que eram destinados em todas as regiões brasileiras, os senhores de engenho e feitores submetiam os escravos a um regime tirânico, sendo colocados em senzalas e postos ao trabalho de sol a sol, com ferrenha repreensão e castigos corporais quando desobedeciam, a exemplo do que João Fernandes Vieira fazia na época da Restauração Pernambucana.
Influências étnicas e culturais
Isso não constituía um problema naquela época, a julgar pelo fato de Pernambuco ter representado um grande importador de escravos, principalmente bantos, que se identificaram bem com a paisagem agrária da cana de açúcar, habitando senzalas ao lado das casas-grandes patriarcais, lidando com engenhos d’água ou de tração animal e cuidando dos canaviais sem fim. As cozinhas dos grandes sobrados e dos solares recifenses preferiram igualmente essa gente ‘amorável e dócil’, tão sugestivamente representada pelos ‘pais-juães’ e mães pretas de muitos avós de hoje em dia.
Os sudaneses escravizados em Pernambuco, por sua vez, se dedicavam a atividades agropastoris nos currais sertanejos para onde foram conduzidos por levas de vaqueiros, quase todos vindos da Bahia, procurando fugir à pressão dos canaviais do Recôncavo e seguindo pelas margens do Rio Francisco. Entre os cafuzos sertanejos, notam-se vestígios desses escravos sudaneses de procedência baiana.
As influências étnicas e culturais dos negros na formação do povo pernambucano são muito evidentes em traços de cor — morena ou parda; de constituição anatômica — cabelo muito crespo, feições fortes dos lábios volumosos e narizes achatados; e na riqueza do vocabulário.

 

 

A herança do Quilombo dos Palmares
A luta contra a escravidão surgiu de duas vertentes: a fuga dos negros no século XVI para certos pontos de difícil acesso, onde podiam resistir a seus opressores, e a pregação da abolição, seja ela com ou sem indenização, realizada pelos brancos no século XIX. No primeiro momento, houve em Pernambuco o Quilombo dos Palmares, em que houve a fuga de escravos bantos, mulatos e crioulos do cativeiro e existiu, aproximadamente, de 1630 a 1697, sendo que, nos primeiros quatorze anos, havia o Palmares holandês, destruído por Rodolfo Bareo, intérprete do Conselho da Capitania de Pernambuco; nos seis anos seguintes, existiu o Palmares da restauração e os quarenta anos finais foram a essência do Palmares terminal.
Palmares foi uma comunidade quilombola que, no século XVII, ocupava a Serra da Barriga. Essa região se estendia do rio São Francisco, em Alagoas, até as vizinhanças do cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Tratava-se de um terreno acidentado e de difícil acesso, coberto de espessa mata tropical que incluía a pindoba, um tipo de palmeira, daí o nome Palmares.
Em anos concomitantes e subsequentes, outros quilombos de menor porte foram marcados em territórios pernambucanos e, hoje em dia, eles são conhecidos por ‘comunidades negras tradicionais’, ‘mocambos’, ‘comunidades regras rurais’ ou ‘terras de pretos’ e mantêm tradições e tecnologias que seus antepassados trouxeram da África, vistas na agricultura, medicina, religião, mineração, técnicas de arquitetura e construção, artesanato e fabricação de utensílios de cerâmica e palha, na relação sagrada com a terra, na culinária, na importância da vida comunitária e, obviamente, na linguagem, pois, na visão de Laura Olivieri Carneiro de Souza, professora do curso de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o uso comum da terra e uma referência territorial coletiva são marcas fundamentais de sua caracterização quilombola, desde o passado até os dias atuais. Assim, reinventaram pequenas Áfricas em solo americano, preservando e passando adiante as suas tradições.
A Federação Cultural de Palmares é o órgão federal responsável pela identificação, reconhecimento e titulação – juntamente com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) dessas pequenas Áfricas ou comunidades quilombolas que se reconhecem como herdeiras de quilombos históricos. De acordo com essa fundação, existem 141 comunidades quilombolas certificadas legalmente em Pernambuco, conforme dados atualizados até a Portaria nº 104 de 20/05/2016 e apenas 12 em processo de certificação.
Apontando exemplos de africanismos no português pernambucano
A chegada de africanos ao Brasil como escravos e a mistura com índios e brancos portugueses ocasionou a formação do verdadeiro ‘português brasileiro’ e as marcas linguísticas oriundas da escravidão foram inicialmente tratadas por Amadeu Amaral (1875 – 1929), Antenor Nascentes (1886 – 1972) e Mário Marroquim (1896 – 1975).
No trabalho ‘A Língua do Nordeste’, Mário Marroquim investigou nos Estados de Alagoas e Pernambuco e registrou itens lexicais relacionados à culinária e à alimentação como aluá, fubá, angu, dendê, quiabo, quibebe e inhame; à música e manifestações culturais como batuque, berimbau, carimbó, ginga, marimba e maxixe; à manifestações religiosas como Nagô, Ogum, capeta; ao convívio e comportamento social como banzé, cafuné, fuzuê, muxoxo e mulambo; à fauna como calango, camundongo, gongá, gorila, orangotango e outros aspectos.
A professora baiana Yeda Pessoa de Castro selecionou os grupos banto e jeje-mina ao dividir o país quanto às questões etnolinguísticas de natureza africana e verificou grandes influências para o português falado em Pernambuco, o que já fora confirmado no trabalho de Renato Mendonça na década de 1930, em que se registraram adjetivos como capiongo (triste), cafuçu (indivíduo grosseiro), cangulo (leitão, porquinho), manzanza (preguiçoso), banguelo (sem dentes), dunga (valente), granzanzá (desengonçada), cassange (divino), inganzento (rabujento, malcriado) e macambúzio (triste), todos oriundos do banto no português falado em Pernambuco no século passado.
É mister considerar que os povos africanos que atracaram em terras brasileiras não devem ser lembrados apenas como trabalhadores que foram escravizados, mas como sujeitos importantes na criação da língua que continua a ser falada tão ricamente.

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 64