A gramaticografia e o estudo comparativo das gramáticas

Estudar gramática de um determinado idioma é mais do que estudar suas regras e normas linguísticas

Texto Maurício Silva | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Shutterstock

Essa é a ideia que está por trás dos estudos de gramaticografia, ou  seja, aquelas pesquisas que procuram compreender as gramáticas não apenas de uma perspectiva imanentista – isto é, em suas regras e normas internas–, mas principalmente dos pontos de vista histórico (sua gênese e constituição históricas) e ideológico (relacionado ao “modo” como ela foi escrita).

 

Isso tudo se deve, ainda, ao fato de uma gramática se constituir num universo múltiplo de perspectivas do idioma que procura normatizar e/ou descrever. É por isso que existem, em tese, gramáticas das mais distintas feições, indo das chamadas gramáticas histórica e comparativa, passando pelas gramáticas pedagógica e teórica, até as categorias mais amplas de gramática geral e específica, sem nos esquecermos das mais “comuns” entre os estudos gramaticográficos: as gramáticas normativa e descritiva.
Em todas elas, podemos encontrar uma infinidade de conceitos, abordagens, propostas e perspectivas linguísticas que os estudos gramaticográficos procuram esclarecer em maior ou menor grau, já que cada uma delas pressupõe “níveis” distintos de composição idiomática. É por isso, também, que, como sugerimos acima, pode-se afirmar que a Gramaticografia, como estudo científico das gramáticas da linguagem verbal, possui, grosso modo, dois pilares epistemológicos de sustentação: um linguístico, em que se estudam os fundamentos teórico-ideológicos da escritura gramatical; outro histórico, em que se estudam os fundamentos históricos de sua gênese e constituição.

 

 

Em relação ao primeiro, pode-se afirmar, por exemplo, que uma gramática descritiva deva ser considerada um conjunto de fatos da linguagem, verificados a posteriori pelo gramático, que descreve a língua levando em conta o princípio da arte de dizer; já a gramática normativa, diferentemente daquela, constituir-se-ia num conjunto preceptivo de fatos da linguagem, organizados pelo gramático com vista àquilo que Quintiliano (ca. 30-96 d.C.), grande professor latino de retórica e oratória, definiu como ars recte loquendi (a arte de falar corretamente), levando em conta, agora, o princípio, a arte de bem dizer.

 

Em relação ao segundo, convém lembrar que a história da gramática no Ocidente é extremamente rica e diversa: liga-se não apenas às concepções filosóficas da linguagem, presentes, na Grécia clássica, em Platão e Aristóteles, passando pelos primeiros gramáticos ocidentais, como Dionísio Trácio e Apolônio Díscolo, até chegar na Roma Antiga e, posteriormente, na Idade Média, às obras de Quintiliano, Donato e Prisciano; mas também, relaciona-se aos gramáticos do Renascimento, quando então começam a surgir as primeiras línguas vernáculas europeias: Antonio de Nebrija (Gramática de la lengua castellana, 1492), Giovanni Francesco Fortunio (Regole grammaticali della volgar lingua, 1516), John Palsgrave (L´esclaircissement de la langue françoyse, 1530), Fernão de Oliveira (Grammatica da lingoagem portuguesa, 1536) e muitos outros.

 

Especificamente sobre a língua portuguesa, são muitas as gramáticas e os manuais de ortografia (bastante comuns numa época em que o registro gráfico da língua ainda não se encontrava totalmente estabilizado), escritos a partir do século XVI: além da primeira gramática acima citada, temos ainda a Gramática da Língua Portuguesa (1540), de João de Barros; a Orthographia da lingoa portuguesa (1576), de Duarte Nunes de Leão; o Método Gramatical para Todas as Línguas (1619), de Amaro de Roboredo; a Arte da Gramática Portuguesa (1672), de Bento Pereira; a Ortografia ou Modo para Escrever Certo na Língua Portuguesa (1631), de Álvaro Ferreira de Vera e outras.

 

Entre as muitas maneiras de se estudar uma gramática, uma das mais interessantes é a análise comparativa: comparando duas ou mais gramáticas entre si, é possível perceber não apenas a “evolução” das ideias linguísticas ao longo de uma determinada época (ou de épocas distintas), mas também os fundamentos ideológicos que sustentam obras e autores, o contexto intelectual em que as respectivas gramáticas foram produzidas, as diferenças de concepção entre tendências idiomáticas e entre estudiosos da linguagem verbal etc.

 

É curioso, por exemplo, observar, a partir de uma análise comparativa, algumas distinções existentes entre a gramática quinhentista portuguesa de um Fernão de Oliveira (Gramática da Linguagem Portuguesa, 1536) e a gramática moderna brasileira de um Júlio Ribeiro (Grammatica Portuguesa, 1881), a começar pelo fato de que, inesperadamente, enquanto a primeira apresenta-se mais descritiva que normativa, embora a tendência da época fosse contrária, a segunda revela-se mais normativa que descritiva, embora a tendência de sua época também fosse oposta.
Outra distinção interessante é o fato de a gramática de Fernão de Oliveira apresentar, ideologicamente falando, uma perspectiva lusocêntrica, ao se opor à predominância do latim e valorizar o português recém-constituído. Nesse sentido, incitava o autor: “Não desconfiemos da nossa língua porque os homens fazem a língua, e não a língua os homens. E é manifesto que as línguas grega e latina primeiro foram grosseiras e os homens as puseram na perfeição que agora têm […] apliquemos nosso trabalho a nossa língua e gente e ficará com maior eternidade a memória dele e não trabalhemos em língua estrangeira, mas apuremos tanto a nossa com boas doutrinas, que a possamos ensinar a muitas outras gentes e sempre seremos delas louvados e amados”.

 

Semelhante empenho “patriótico” não é verificado na gramática de Júlio Ribeiro, mais preocupado em vincular alguns fatos da língua a determinismos que tomavam como modelo as ciências naturais: para ele, portanto, a linguagem verbal seguia o mesmo percurso evolutivo das espécies vivas, como demonstra o quadro acima. A gramática de Fernão de Oliveira é o resultado concreto do processo histórico de Portugal, assim como a de Júlio Ribeiro, escrita mais de três séculos depois, é, igualmente, resultado do processo histórico brasileiro, mas também do longo percurso vivido pela língua portuguesa ao ser transplantada da Europa para a América.

 

Com efeito, essa é uma história de muitos capítulos: da chegada dos jesuítas ao Brasil em 1549 – quando os primeiros colégios são fundados ao longo de nosso litoral – e do processo de gramaticalização e instrução das línguas dificultosas da colônia (línguas indígenas e africanas), como José de Anchieta (autor da Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil, 1595), Luís Figueira (autor da Arte da Língua Brasílica, 1621), Pedro Dias (autor da Arte de Língua de Angola oferecida a Virgem Senhora N. do Rosário, 1697), Luís Vincencio Mamiani (autor da Arte de Gramática da Língua Brasílica da Nação Kiriri, 1877) e muitos outros; passando ainda pela publicação das primeiras gramáticas brasileiras da língua portuguesa, como a Epítome da Gramática da Língua Portuguesa (António de Moraes Silva, 1813), o Compendio de grammatica philosophica da língua portugueza (Antônio da Costa Duarte, 1829), o Compêndio da Gramática da Língua Nacional (Padre Antônio Coruja, 1837), o Compendio da gramática filosófica (Manoel Soares da Silva Bezerra, 1861) e outras; até chegarmos ao chamado período científico de nossa gramaticografia, como a citada gramática de Júlio Ribeiro e outras que lhe seguiam o modelo, como a de João Ribeiro (Gramática Portuguesa, 1887), de Maximino Maciel (Gramatica Analítica, 1887), de Pacheco Silva e Lameira Andrade (Gramática da Língua Portuguesa, 1887), de Eduardo Carlos Pereira (Gramática Expositiva da Língua Portuguesa, 1907) e outras.
Assim, das propostas ortográficas e ortoépicas de Fernão de Oliveira, que procurava descrever a maneira adequada de se pronunciar as vogais e as consoantes do português – como se pode verificar nessa curiosa descrição de pronúncia da letra c: “pronuncia-se dobrando a língua sobre os dentes queixais, fazendo um certo lombo no meio dela diante do papo, quase chegando com esse lombo da língua ao céu da boca e impedindo o espírito, o qual por força faça apartar a língua e faces e quebre nos beiços com ímpeto” – às propostas morfossintáticas de Júlio Ribeiro, que propunha a ocorrência, no português moderno, de um atualmente inexistente modo condicional, de uma quarta conjugação verbal (verbos terminados em -or) e de um inusitado particípio presente, o estudo comparado entre as gramáticas tem muito o que nos ensinar.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 62