A educação fora dos bancos escolares

O projeto de construção do Brasil Moderno, pela via da educação, tem seu foco central na criança. Veja como!

Texto J.A Ramos | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

A função “Educar”, parafraseando Gramsci, é colocar fim à separação entre “Homo faber e Homo sapiens”; é resgatar o sentido estruturante da educação e de sua relação com o trabalho, as suas possibilidades criativas e emancipatórias, transformar essas ideias e princípios em práticas concretas é tarefa que exigirá ações que vão além dos espaços das salas de aula, dos gabinetes e dos espaçõs acadêmicos. Os processos educacionais e os processos sociais mais abrangentes de reprodução estão intimamente ligados, ou seja, sem rupturas nas relações sociais que estão sob o controle do sistema de capital e não poderá haver mudanças profundas no sistema educacional. Sob as relações sociais capitalistas a educação funciona, dominantemente, como sistema de internalização dos conhecimentos, valores e cultura funcionais à reprodução do metabolismo social. Se, por um lado, Adam Smith e John Locke, naturalizavam a sociedade capitalista e o dualismo na educação, por outro lado Robert Owen demonstrava a fragilidade do socialismo utópico, além do reformismo defendido por Edward Bernstein. Cada uma dessas correntes de pensamento, a seu modo, conduziam a visões moralizantes do como deveria ser a educação; isto é, separar o inseparável.  Já os intelectuais da Educação Nova, que pensaram a construção da Modernidade no Brasil (modernidade que pressupõe uma ruptura com o passado), buscaram romper com uma determinada concepção de infância, entendida como imperfeição do ser humano, adulto-pequeno, sem variações sociais, por uma outra, sustentáculo do projeto educacional e, consequentemente, de uma nova sociedade. Essa dimensão da construção de uma concepção de infância pelos intelectuais nos leva a mais uma questão. Os formuladores desta nova concepção de infância são sempre os adultos.

Dessa forma, pensar a infância é buscar algumas evidências articuladas à família e, também, no mundo moderno à escola. O projeto de construção do Brasil Moderno, pela via da educação, elaborado por esses intelectuais, tem seu foco central na criança, na medida em que será o homem do futuro, principal ator e protagonista de uma nova sociedade. A poeta, jornalista e educadora Cecília Meireles atuou num importante viés educacional na sociedade de seu tempo. Como integrante do movimento Escola Nova dos anos 30, esteve profundamente envolvida com a causa educacional partilhada por sua geração. A crônica intitulada Triste cena nos permite perceber algumas das preocupações de Cecília. A crônica de Cecília Meireles, escrita em outra lacuna do tempo, pode possibilitar uma reflexão sobre a realidade de um ser concreto, que sofre as consequências de uma sociedade ainda excludente, que busca a homogeneização e que busca em vão abrir espaços para a diversidade. Esse menino, embora sem um nome, nos impõe uma cena – não, na verdade, várias cenas no sentido plural do termo. A voz da mãe, olhar cabisbaixo da criança, a humilhação, a dor e o silêncio. Podemos dizer que família e escola, de seus lugares de saber, instituem relações de poder que sufocam e desrespeitam qualquer imagem contrária às suas crenças. Ao pensar no relato da crônica, a mãe, do lugar que ocupa, deseja o “melhor” para o filho: o sucesso através da obediência e, para tal, pensa ela, faz-se necessário uma disciplina rígida. Noutro plano, não menos autoritário, estão as escolas pelas quais o menino passou. Nelas as autoridades pensaram a partir de uma perspectiva unilateral: a do saber que lhes confere o poder de excluir qualquer “ameaça ao sucesso”.

 
EVOLUÇÃO DA ESCOLA

 

É claro que se faz necessário compreender o contexto educacional da década de 30: nesse período, os aspectos disciplinares eram rígidos e o aluno dificilmente era ouvido. Ao refletir sobre como as relações de saber e poder se operacionalizavam, a constatação que se tem talvez seja a da presença de uma multiplicidade de “tristes cenas” ocupando os lugares da infância na escola e na família. E hoje, qual a diferença deste cenário? A escola já não tem o poder autoritários da época, a família, matriz da iniciação educacional já não mais funciona por conta da ausência necessária dos pais. Então a “escola” passa ser a única responsável por esta educação e sem estar preparada. Aquela concepção romântica de Rousseau tem também intensas ressonâncias na atualidade. Podemos flagrá-la em espaços educacionais da sociedade. Podemos localizá-la em nosso apego simbólico em relação à ideia de que a criança é espontânea, é feliz, é boa.

Tais concepções persistentes contemporaneamente podem ser lidas como tentativas de assegurarmos a nós mesmos que, a despeito do caos que prepondera em nosso mundo adulto, podemos ser felizes. Isto porque desejamos acreditar que a criança é feliz, que outrora, num movimento de idealização do passado, nós já fomos felizes. E assim projetamos, nessa sequência imagética romântica, nosso ideal de felicidade para o futuro, que é concebido de maneira desarticulada do próprio tempo presente, de nossas atuações neste presente. Existindo de fato e naturalmente a infância como etapa especial de vida, há que se preservá-la e fazê-la acontecer. Diferentemente, o Iluminismo concebe a infância a partir da racionalidade, o que nos remete a uma visão da criança de hoje como o adulto de amanhã. A concepção que consubstancia a filosofia das Luzes consagra a separação entre adultos e crianças. Essa separação vislumbra um conceito unilateral de infância pautado num ideal de criança abstrato: uma visão de infância que abriga uma criança que deve ser cuidada, escolarizada e preparada para o futuro. Nessa concepção, supõe-se que os pais consigam suprir as necessidades básicas. Entretanto, existem aquelas crianças que, para sobreviver, lançam mão de um trabalho braçal, objetivando contribuir para o sustento da família.

 

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa | Ed. 50