A construção do ambiente alfabetizador

A relação das práticas de leitura e escrita das crianças com a instituição de ensino e seu corpo docente

Texto: Aline Fernanda Camargo Sampaio | Fotos: 123rf, Shutterstock | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

Tais pesquisas deslocavam a discussão sobre alfabetização, mudando o foco de análise: do professor que ensina e dos métodos e técnicas de alfabetização, passavam a pesquisar a criança que se alfabetiza e seu processo de construção de conhecimentos, no caso, sobre a linguagem escrita. O pressuposto básico do qual partiam esses trabalhos é de que as crianças, todas elas, são sujeitos de conhecimento e, como tal, quando crescem em comunidades letradas, não permanecem indiferentes ao código escrito e constroem conhecimentos sobre a leitura e a escrita, antes mesmo que algum adulto decida ensinar-lhes sistematicamente.

Esta constatação levou Ferreiro a propor o que passou a denominar de “ambiente alfabetizador”, que visava levar para sala de aula um ambiente semelhante ao que as crianças viviam em seu cotidiano quando expostas a situações de leitura e de escrita. A pesquisadora defendia que, assim fazendo, o professor estaria contribuindo para o processo de alfabetização das crianças.

Nas palavras da autora, criar um ambiente alfabetizador significa organizar a sala de aula de maneira que em cada classe de alfabetização deve haver um “canto ou área de leitura” onde se encontrem não só livros bem editados e ilustrados, como qualquer tipo de material que contenha a escrita (jornais, revistas, dicionários, folhetos, embalagens e rótulos comerciais, receitas, embalagens de medicamentos etc.). Quanto mais variado esse material, mais adequado para realizar diversas atividades de exploração, classificação, busca de semelhanças e diferenças e para que o professor, ao lê-los em voz alta, dê informações sobre “o que se pode esperar de um texto”. (FERREIRO, 1993, p. 33)

No sentido de trazer pistas aos professores sobre como organizar o ambiente em sala de aula, Ferreiro (1993) usa a expressão canto ou área de leitura, talvez tendo, como referência, a experiência da escola de Educação Infantil, onde a organização de diferentes “cantos” tem sido, tradicionalmente, a metodologia usada.

Assim, diz-se que um ambiente é alfabetizador quando promove um conjunto de situações de usos reais de leitura e escrita, nas quais as crianças têm a oportunidade de participar.

Se os adultos com quem as crianças convivem utilizam a escrita no seu cotidiano e oferecem a elas a oportunidade de presenciar e participar de diversos atos de leitura e de escrita, elas podem, desde cedo, pensar sobre a língua e seus usos, construindo ideias sobre como se lê e como se escreve.

Mediação pela escrita
Na instituição de Educação Infantil, são variadas as situações de comunicação que necessitam da mediação pela escrita. Isso acontece, por exemplo, quando se recorre a uma instrução escrita de uma regra de jogo, quando se lê uma notícia de jornal de interesse das crianças, quando se informa sobre o dia e o horário de uma festa em um convite de aniversário, quando se anota uma ideia para não esquecê-la ou quando o professor envia um bilhete para os pais e tem a preocupação de lê-lo para as crianças, permitindo que elas se informem sobre o seu conteúdo e intenção.

A participação ativa das crianças nesses eventos de letramento configura um ambiente alfabetizador na instituição. Isso é especialmente importante quando as crianças provêm de comunidades pouco letradas, em que têm pouca oportunidade de presenciar atos de leitura e escrita junto com parceiros mais experientes.

Nesse caso, o professor torna-se uma referência bastante importante. Se a Educação Infantil trouxer os diversos textos utilizados nas práticas sociais para dentro da instituição, estará ampliando o acesso ao mundo letrado, cumprindo um papel importante na busca da igualdade de oportunidades.

Nesse contexto, convém lembrar que os estudos acerca da psicogênese da língua escrita trouxeram aos educadores o entendimento de que a alfabetização envolvia um complexo processo de elaboração de hipóteses sobre a representação linguística. Nos anos seguintes à década de 1980, esses estudos se voltaram para o letramento. Ou seja, se antes o enfoque era cognitivo, passou-se, então, à dimensão sociocultural da língua escrita e de seu aprendizado.

É importante salientar também que, algumas vezes, o termo “ambiente alfabetizador” tem sido confundido com a imagem de uma sala com paredes cobertas de textos expostos e, às vezes, até com etiquetas nomeando móveis e objetos, como se esta fosse uma forma eficiente de expor as crianças à escrita.

É necessário considerar que expor as crianças às práticas de leitura e escrita está relacionado com a oferta de oportunidades de participação, em situações nas quais a escrita e a leitura se façam necessárias, isto é, nas quais tenham uma função real de expressão e comunicação.

De acordo com Araújo (2004),
A construção de ambientes alfabetizadores favoráveis à aprendizagem das crianças das classes populares, construídos a partir da diferença cultural, precisa tomar como base a relação – leitura de mundo/leitura da palavra –, procurando garantir que o processo de ensinar a ler e a escrever se torne um espaço onde os que foram silenciados e não usufruem dos benefícios socioculturais produzidos pela sociedade em seu conjunto , possam ‘tomar a palavra’. (ARAÚJO, 2004, p.150)

Para que a escola possa se constituir nesses ambientes alfabetizadores, contribuindo para as crianças se apropriarem da linguagem escrita como um instrumento de intervenção da realidade, é preciso construir estratégias pedagógicas, como, por exemplo, trabalhar com textos variados e de diferentes gêneros em sala de aula. Também a seleção do material escrito deve estar guiada pela necessidade de iniciar as crianças no contato com os diversos textos e de facilitar a observação de práticas sociais de leitura e escrita, nas quais suas diferentes funções e características sejam consideradas.

O professor, de acordo com seus projetos e objetivos, pode escolher com que gêneros vai trabalhar de forma mais contínua e sistemática, para que as crianças os conheçam bem. Por exemplo, conhecer o que é uma receita culinária, seu aspecto gráfico, formato em lista, combinação de palavras e números que indicam a quantidade dos ingredientes etc., assim como as características de uma poesia, histórias em quadrinhos, rótulos ou notícias de jornal.

O grande desafio da escola
Alguns textos são adequados para o trabalho com a linguagem escrita nessa faixa etária, como, por exemplo, receitas culinárias, regras de jogos, textos impressos em embalagens, rótulos, anúncios, slogans, cartazes, folhetos, cartas, bilhetes, postais, cartões (de aniversário, de Natal etc.), convites, diários, histórias em quadrinhos, textos de jornais e revistas, parlendas, canções, poemas, quadrinhas, adivinhas e trava-línguas, contos de fadas, mitos, lendas, fábulas, relatos históricos, textos de enciclopédia etc.

Desse modo, o grande desafio da escola, além de criar situações de uso da leitura e da escrita, é dar sentido a esse aprendizado. Para isso, é preciso refletir sobre as diferentes alfabetizações que são vividas por elas em seu cotidiano, os saberes e as leituras produzidas nesses embates, para que, reconhecidos e mobilizados dentro da instituição escolar, possam se tornar a base do processo de apropriação da linguagem escrita.

Por fim, vale lembrar que aprender a língua escrita significa aprender os seus significados culturais e os modos pelos quais as pessoas entendem e interpretam a realidade e a si mesmas. A linguagem não é apenas a língua e seu sistema de códigos; ao contrário, é uma criação viva e que permite aos indivíduos interagir com o meio e consigo mesmos. Por essa razão, ela é dinâmica, dialética e transformadora.